Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática, que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra no último ‘Quarto de Badulaques’. Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei “varreção” – do verbo “varrer”. De fato, trata-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer xerox da página 827 do dicionário, aquela que tem, no topo, a fotografia de uma “varroa”(sic!) (você não sabe o que é uma “varroa”?) para corrigirme do meu erro. E confesso: ele está certo. O certo é “varrição” e não “varreção”. Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim porque nunca os vi falar de “varrição”. E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes a cópia xerox da página do dicionário com a “varroa” no topo. Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala “varreção” quando não “barreção”. O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio.
ALVES, Rubem. Mais badulaques. São Paulo: Parábola, 2003.
Leia estas afirmativas
I. A palavra “varreção” foi escrita dessa maneira em ‘Quarto de Badulaques’, livro de Rubem Alves.
II. Rubem Alves fazia a revisão de seus textos com base nas correções enviadas por um de seus amigos.
III. As palavras dicionarizadas, na opinião de Rubem Alves, deveriam ser usadas em todo território nacional.
IV. “Varreção” e “Barreção” são duas formas equivalentes a “varrição”, ambas utilizadas pelos mineiros.
São comprovadas pelo texto, apenas a(s) afirmativa(s)