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Muitos séculos antes da era cristã, a civilização grega já empregava os serviços do médico prático, que curava com emplastros, medicamentos diversos e técnicas bastante desenvolvidas, como as de enfaixe de fraturas e ferimentos.
Homero, na Ilíada, escreveu que, durante o cerco de Troia, o exército grego contava com dois médicos, Podalírio e Macáone, discípulos de Asclépio (deus da medicina). Na obra, ele descreve a intervenção de Macáone sobre o ferimento sofrido por Menelau, marido da bela Helena, o pivô da guerra. Essas descrições sugerem que, embora ainda não superada, a figura mística do sacerdote-médico já se enfraquecia. Não obstante, sua força ainda era grande e prosseguiria por centenas de anos.
Os templos consagrados a Asclépio eram chamados de asclepeions e neles reuniam-se diariamente doentes em busca de curas miraculosas, que seriam realizadas graças à intervenção divina. Do ponto de vista arquitetônico, um asclepeion não era um simples templo como os consagrados a outros deuses. Constituía-se numa série de dependências situadas em torno do templo propriamente dito. As monumentais ruínas do mais notável de todos, o de Epidauro, revelam conjuntos residenciais anexos, ou seja, verdadeiros hospitais, nos quais moravam as pessoas ligadas ao templo e às práticas médicas e onde se alojavam os doentes antes, durante e depois do tratamento.
Ao lado desses imponentes setores residenciais, encontravam-se salões providos de vestiários, duchas, banheiras, afora teatros que serviam à recreação dos doentes. Eram normalmente construídos em zonas de clima estável e circundados por extensos bosques de coníferas e plantas aromáticas, o que conferia ao ar uma salubridade particular. Localizavam-se sempre nas proximidades de uma fonte de águas minerais ou termais, fator que determinaria, possivelmente, em muitos casos, o processo de recuperação dos enfermos. A estrutura dos asclepeions contribuiu para o acompanhamento de casos clínicos e deu espaço para o aparecimento de dois gênios.
O primeiro, Alcmeone, nascido por volta de 500 a.C., foi o pioneiro na dissecação de cadáveres com o objetivo de investigar os mistérios da anatomia e da fisiologia humanas. Genial, afirmou, com firmeza, que o cérebro era o centro do sistema nervoso e que, portanto, todas as sensações eram recebidas, reguladas e analisadas nesse órgão. Infelizmente, da sua obra só restaram fragmentos esparsos e citações a ele atribuídas por outros autores.
O segundo, Hipócrates, conhecido como o “pai da medicina”, fundou a Escola de Cós, situada na ilha onde nascera, em 460 a.C., e onde lançou as bases do estudo objetivo da medicina. Em consonância com os costumes da época, era um médico ambulante e, em função do ofício, percorreu toda a Grécia, além de haver provavelmente visitado a Líbia e o Egito. Sua longa vida permitiu-lhe acumular lendário prestígio, resultante de obra fecunda como escritor, praticante e professor da medicina. Seu grande mérito foi defender que a medicina não poderia ser estudada a partir de pressupostos — o que era a regra à época —, mas deveria ser apreendida experimentalmente, isto é, através da observação direta dos fenômenos. Paralelamente, Hipócrates tentou dissociar a medicina da superstição. A posição hipocrática, ousada e desafiadora, não deixou de chocar a sociedade da época — a epilepsia, por exemplo, era considerada uma doença sagrada, isto é, produzida pelo alojamento de espíritos no corpo do paciente (crença que perdurou na Europa até a Idade Média).
Existem 53 obras atribuídas à sua autoria e, embora estudos filológicos lancem dúvidas sobre a autenticidade de todas elas, permanece ímpar a contribuição de Hipócrates nos campos da semiologia (estudo dos sinais e sintomas), do diagnóstico, da terapêutica, da ética profissional e até mesmo em certos setores da cirurgia.
Jorge Boucinhas. A medicina na antiga Grécia. Internet: <www.tribunadonorte.com.br> (com adaptações).
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Os vocábulos “Constituía” (terceiro parágrafo), “ruínas” (terceiro parágrafo) e “construídos” (quarto parágrafo) são acentuados graficamente de acordo com a mesma regra de acentuação gráfica.