Disciplina: Português
Banca: Instituto Access
Orgão: Pref. Boa Esperança-PR
- Interpretação de TextosTipologia e Gênero TextualTipologias TextuaisTexto Narrativo
- Interpretação de TextosTipologia e Gênero TextualTipologias TextuaisTexto Descritivo
- Interpretação de TextosTipologia e Gênero TextualTipologias TextuaisTexto Dissertativo-expositivo
- Interpretação de TextosTipologia e Gênero TextualTipologias TextuaisTexto Dissertativo-argumentativo
Leia atentamente o texto a seguir e responda às questões de 1 a 10.
O império da embriaguez
O consumo abusivo de bebidas alcoólicas é um
problema de saúde pública que afeta milhões de pessoas
em todo o mundo, inclusive no Brasil. O consumo de álcool
está associado a uma série de doenças, incluindo doenças
5 do fígado, hipertensão, diabetes, depressão e câncer, além
de estar também relacionado a acidentes de trânsito,
violência pessoal e interpessoal e outros comportamentos
perigosos. Uma maneira eficaz de reduzir o consumo de
bebidas alcoólicas é através do aumento de preços, tema
10 em discussão na atual reforma tributária e debatido em
pesquisa recente da ACT Promoção da Saúde.
Além dos fatores de saúde, há também o que vem
sendo denominado de "determinantes comerciais da
saúde", com o aval da Organização Mundial da Saúde
15 (OMS) e do Banco Mundial, que são atividades
normalizadas para criar estímulo ao consumo de
determinados produtos, mesmo que eles sejam prejudiciais
e provoquem efeitos negativos à saúde, ao meio ambiente
ou à sociedade como um todo. A indústria de bebidas
20 alcoólicas, por exemplo, investe fortemente em medidas
como publicidade e marketing e preços baixos, visando ao
aumento de vendas e do consumo de seus produtos, que
são capazes de levar à dependência, doenças e até mesmo
à morte, especialmente entre as populações jovens e mais
25 vulneráveis.
Diversos determinantes comerciais e sociais da saúde
são discutidos em profundidade no relatório Álcool,
Obstáculo para o Desenvolvimento Sustentável, da ONG
Movendi Internacional. O documento analisa o consumo de
30 bebida alcoólica desde seu aspecto individual e psicológico
até seu poderoso enraizamento econômico e seus galhos
de oligopólio. O relatório demonstra ainda como a indústria
de bebida alcoólica constitui um império global em posse
de tremendo capital financeiro e cultural com influência
35 incontestável sobre a vida de bilhões de pessoas no mundo
todo.
Embora os efeitos do álcool no corpo humano sejam
conhecidos há milênios, a escala industrial da produção e
distribuição de bebidas alcoólicas confere nova e
40 complicada dimensão à questão de seu consumo. Em nossa
sociedade contemporânea, comemorar envolve
embriaguez. Socializar envolve embriaguez. O patrocínio do
esporte envolve embriaguez, o financiamento da cultura,
idem. Fica a noção de que a alegria e a conquista estão
45 diretamente associadas ao consumo de álcool. Estamos tão
acostumados a esse fato que tentativas de regulação desse
setor são encaradas com antipatia e explosões de
irracionalismo.
De acordo com levantamento da Vital Strategies a
50 partir de dados extraídos do Sistemas de Informações sobre
Mortalidade, do Ministério da Saúde, o aumento no
consumo de bebidas alcoólicas durante a pandemia levou,
na cidade de São Paulo, por exemplo, a um crescimento de
150% de mortes por transtornos mentais ou
55 comportamentais. No estado, o salto foi de 64,5% e no país
de 18,4%. Já a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar
(PeNSE) de 2019 mostrou que quase metade dos
adolescentes já consumiu bebida alcoólica. Vale destacar
que, para fins da legislação que controla a publicidade e
60 propaganda de bebidas alcoólicas, cerveja, ices e outras
bebidas com menor teor alcoólico não se enquadram
na categoria de álcool. Na prática, isso as isenta de qualquer
regulação apropriada dessas ações.
A tributação seletiva sobre todas as formas de bebidas
65 alcoólicas é comprovada por estudos do Banco Mundial,
ratificados pela OMS, como a medida mais custo-efetiva
para reduzir a prevalência do seu consumo de forma
danosa. Sua adoção ainda seria capaz de arrecadar recursos
para ações de prevenção e tratamento de saúde,
70 financiando importante pilar do desenvolvimento
sustentável. Em um momento em que a ministra da Saúde,
Nísia Trindade, reforça o comprometimento do governo
federal com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
da Organização das Nações Unidas (ONU), o caminho da
75 tributação seletiva do álcool é um passo necessário para c
omprovar tal compromisso. As discussões em andamento
sobre a reforma tributária possibilitam a aprovação de
medidas concretas nesse sentido.
E antes que haja o retorno do argumento de que
80 haveria desemprego na indústria, lembremos das horas de
produtividade desperdiçadas por ressaca, doença, dos
acidentes de trânsito, das violências e das milhares de
mortes que poderiam ser evitadas todos os anos, se
houvesse um consumo de álcool mais consciente e
85 reduzido. Portanto, para que o respeito a essa histórica
substância psicotrópica seja recuperado, honestidade e
controle, que podem ser promovidos por meio da
tributação majorada, são o caminho adequado para a
maturidade, tanto social quanto individual, na trilha do
90 desenvolvimento sustentável.
(Claudio Fernandes & Laura Cury. Claudio Fernandes é economista sênior do GT Agenda 2030; Laura Cury é coordenadora do projeto álcool da ACT Promoção da Saúde. https://www1.folha.uol.com.br/blogs/saude-em-publico/2023/05/o-imperio-da-embriaguez.shtml. 4.mai.2023)
O texto se classifica, em relação à sua tipologia, eminentemente como