A Belíndia revisitada
Era uma vez o país que mais crescia em todo o mundo. Sua riqueza aumentava a um ritmo invejável, superior a 10% ao ano. Porém os lucros do progresso beneficiavam, acima de todos, uma fração de seus habitantes, justamente aqueles mais ricos. O então chamado czar da economia afirmava não haver motivo para preocupações. Primeiro seria necessário fazer crescer o bolo da economia, para depois dividi-lo. Esse país, na fábula criada pelo economista Edmar Bacha, era a Belíndia, a "ilha dos contrastes", onde a maior parte da população vivia tão miseravelmente quanto na pobre Índia e uma minoria desfrutava um padrão de vida belga. A fábula "O rei da Belíndia", publicada em 1974 no jornal esquerdista Opinião por indicação do economista Celso Furtado, foi a maneira alegórica encontrada por Bacha, sob a censura, para explicitar a crescente desigualdade social nos anos do "milagre econômico" brasileiro. (...)
A fábula reaparece agora no capítulo inicial de Belíndia 2.0VI (Civilização Brasileira, 462 páginas, 59,90 reais), uma coletânea de artigos e ensaios econômicos escritos por Bacha nas últimas quatro décadas. Ao completar 70 anos, ele acreditou ser um momento oportuno para reeditar alguns de seus textos mais populares e influentes, aqueles de interesse do público não especializado, além de publicar pela primeira vez trabalhos antes apenas disponíveis em inglês e artigos recentes sobre as novas metasa serem alcançadas pelo país. No conjunto, os capítulos deslindam um panorama da economia brasileira desde o governo militar até os dias atuais. Bacha, afora seu talento como professor de economiaIV, fala a partir da perspectiva de quem participou diretamente dos acontecimentos. Foi presidente do IBGE no governo José Sarney (até pedir demissão por causa de tentativas de manipulação nos índices de preços) e comandou o BNDES no início do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi um dos pais do fracassado Plano Cruzado e também do bem-sucedido Real. A propósito de sua experiência no Cruzado, escreveu a divertida fábula "O fim da inflação no reino de Lisarb",II o "país dos contrários" (na ironia, Lisarb é Brasil de trás para a frente). Na anedota, economistas reúnem-se no Sambódromo para debater como derrotar a inflação. Onde tudo era do avesso, nunca se chegava a uma resposta clara sem embaralhar causas e consequências.
O Brasil evoluiu desde os tempos de Belíndia e de Lisarb. A democracia se consolidou. A estabilidade monetária e a queda gradativa nas taxas de juros reverteram a dinâmica de concentração derenda. Contribuíram o Bolsa Família e outros programas sociais. Como resultado, os rendimentos dos pobres passaram a crescer mais rápido que os dos ricos. Entre 2001 e 2011, a renda dos 10% mais pobres avançou 91%, ao passo que a dos 10% mais ricos aumentou apenas 17%. Como disse o economista Marcelo Neri, presidente do IPEA, na nova Belíndia "o lado pobre do Brasil cresce tanto quanto a economia da Índia, e o lado belga está tão estagnado quanto os países europeus". Se o filme corre favoravelmente aos pobres, o instantâneo fotográfico revela um país ainda extremamente desigual.
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O Brasil tem melhorado, mas o ritmo frustraV. O PIB nos países emergentes da Ásia e em alguns na vizinhança da América do Sul avança em velocidade superior. O desalento diante do crescimento baixo traz a ameaça, na avaliação de Bacha, de o governo brasileiro, na ânsia de estimular o PIB a todo preço, "alimentar os germes da cultura inflacionária que pareciam ter sido banidos". A inflação deixou de ser combatida com o mesmo rigor, o protecionismo está em alta e a política industrial favorece um punhado de empresas escolhidas. "O resultado pode ser um retorno ao capitalismo de compadrio", adverte Bacha.
O economista propõe, como alternativa, uma política de ações construtivas, sem atalhos improvisados, para diminuir definitivamente a taxa de juros. O primeiro ponto seria a aprovação de um teto para o crescimento nos gastos públicos. Assim a necessidade de financiamento do governo diminuiria. (...)
Não existe economista que não almeje ver o Brasil no time das nações desenvolvidas. A diferença está na fórmula para chegar lá. Diz Bacha: "O perigo está em buscar soluções do passado, em vez de desenvolver novas soluções com base no fluxo constante de conhecimentos". Barreiras comerciais, controle de preços e manipulação de reajustes são soluções fracassadas do passado. Nada surpreende, entretanto, no país dos contrastes e dos contrários. O ministro que engordou o bolo sem dividi-lo voltou a ser um dos conselheiros mais influentes no reino da Belíndia — e até a presidente, que quarenta anos atrás era uma das presas políticas durante a ditadura, ouve os conselhos dele.
GUANDALINI, Giuliano. A Belíndia revisitada. Veja, São Paulo, v. 45, n. 41, p. 94-95, 10 out. 2012. Adaptado.
Analise as proposições:
(I) Os personagens da fábula “O fim da inflação no reino de Lisarb” são os economistas.
(II) O programa Bolsa Família contribuiu para a mudança na distribuição de renda no Brasil.
(III) Segundo o autor de Belíndia 2.0, a vontade de o governo brasileiro estimular o PIB a qualquer custo pode ter como ameaça o retorno da inflação.
(IV) O trecho “Bacha, afora seu talento como professor de economia...” transmite a informação de que o autor de Belíndia 2.0 não é um professor talentoso.
(V) O trecho “O Brasil tem melhorado, mas o ritmo frustra...”é esclarecido pela informação que vem imediatamente depois.
(VI) “A fábula reaparece agora no capítulo inicial de Belíndia 2.0...”. Para a compreensão da época a que o advérbio agora se refere, podemos ir à informação bibliográfica registrada após o texto.
Analisadas as proposições, aponte a alternativa CORRETA.