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Texto para responder às questões de 1 a 7.
Cobrança
Moacyr Scliar
1 Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa,
2 caminhando de um lado para outro. Carregava um
3 cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos
4 passantes: "Aqui mora uma devedora
5 inadimplente".
6 ― Você não pode fazer isso comigo ― protestou
7 ela.
8 ― Claro que posso ― replicou ele. ― Você
9 comprou, não pagou. Você é uma devedora
10 inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas
11 vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
12 ― Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta
13crise...
14 ― Já sei ― ironizou ele. ― Você vai me dizer que
15 por causa daquele ataque lá em Nova York seus
16 negócios ficaram prejudicados. Problema seu,
17 ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar.
18 E é o que estou fazendo.
19 ― Mas você podia fazer isso de uma forma mais
20 discreta...
21 ― Negativo. Já usei todas as formas discretas que
22 podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada.
23 Você fazia de conta que nada tinha a ver com o
24 assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que
25 não me restou outro recurso: vou ficar aqui,
26 carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
27 Neste momento começou a chuviscar.
28 ― Você vai se molhar ― advertiu ela. ― Vai acabar
29 ficando doente. Ele riu, amargo:
30 ― E daí? Se você está preocupada com minha
31 saúde, pague o que deve.
32 ― Posso lhe dar um guarda-chuva...
33 ― Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um
34 guarda-chuva. Ela agora estava irritada:
35 ― Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro.
36 Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
37 ― Sou seu marido ― retrucou ele ― e você é
38 minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e
39 você é devedora. Eu avisei: não compre essa
40 geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as
41 prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora
42 o pessoal lá da empresa de cobrança quer o
43 dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca
44 meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até
45 você cumprir sua obrigação.
46 Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição
47 tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava:
48 continuava andando de um lado para outro, diante
49 da casa, carregando o seu cartaz.
O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2001.
Esse texto, de acordo com o gênero textual, é um(a)