O texto III deve ser lido para se responder à questão.
Texto III
A ilusão do fim de semana
Há algo errado nisto.
Onde havia florestas construímos cidades de concreto, asfalto e vidro. Aí vivemos. Ou melhor: trabalhamos. Mas como o
lugar onde trabalhamos não é onde queremos viver, então no fim de semana rumamos para onde há floresta ou praia, onde, além do
verde e do azul, se pode respirar.
Chegamos. Acabamos de encostar o carro na garagem da casa de campo, fazenda ou do hotel nas montanhas.
Chegar aqui não foi fácil. Duas, cinco, às vezes dez horas de engarrafamento. O verde e o azul, lá longe ainda, difíceis de
alcançar. E a gente ali na estrada entalado num terrível rito de ultrapassagem.
[..] O simples fato de nos aproximarmos do verde já muda o clima psicológico dentro do carro. Vai ficando para trás a fuligem
da cidade. E ao subir a serra começa uma descontração no diafragma. Aqueles que estavam tensos, indo para a natureza, já tornam suas
frases mais macias, já começam a ficar mais amorosos. Algumas brigas de casal vão se diluindo na passagem da cidade para o campo.
Enfim, chegamos. São desembarcadas as malas, as portas e janelas da casa e corpo se abrem e a clorofila começa a entrar pelos
poros. As flores continuaram a elaborar suas cores em nossa ausência. Os pássaros continuaram a emplumar as estações. [...]
À noite pode-se acender a lareira e ali se ficar prostrado com um copo de uísque ou vinho, uma xícara de chá ou café, olhando,
olhando o fogo como um primitivo na caverna de si mesmo.
Todavia, essa incursão no paraíso vai acabar. O fim de semana escoou-se. Já começamos a refazer as malas e a ficar ansiosos e
de mau humor. Vamos começar a descer a serra para retornar ao campo de concentração urbana. Mal sinalizadas, as estradas vez por
outra nos deixam ver um cão morto no asfalto. [...]
Aproximamo-nos da cidade. A temperatura começa a subir, um calor abafado vai grudando na pele. O mau cheiro irrita as
narinas, o ruído agride os tímpanos. O ritmo do pulso é tenso e há um cruzar de buzinas, faróis, anúncios e sempre a possibilidade de
uma emergente violência.
Chegamos ao apartamento ou casa. Descarregamos tudo pelo elevador com ar de vitória e derrota. Na sala, jornais,
correspondência acumulada. O dia seguinte já nos espreita na treva. Aí começaremos a fazer novos planos para fugir da cidade.
Planejaremos outro feriado e contaremos quanto tempo falta para a aposentadoria.
Há algo de errado nisto. E persistimos.
Fonte: SANTANNA. Affonso Romano de. Porta de colégio e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1997. p. 43-46. Adaptado.
I- Verde e azul, apesar de se classificarem normalmente como adjetivos, aqui funcionam como substantivos.
II- “O verde e o azul” constituem o sujeito composto da oração.
III- “O verde e o azul” são adjuntos adnominais, já que são adjetivos.
IV- “lá longe ainda” funciona como locução adverbial de lugar.
V- Há um verbo elíptico no trecho.
É CORRETO o que se afirma em:
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