Em se plantando, tudo dá.
Nós nos lembramos de nossas mães a nos pedir para ir buscar cal virgem nalguma construção das redondezas. Era para um especialíssimo doce de abóbora. Uma dessas mães do meio do século 20, a gaúcha de Rio Grande Mabel Dias Teixeira, aos 85 anos nos passa sua receita. Corta uma abóbora média em cubos e deixa em água com duas colheres de cal. Enquanto isso, adianta a calda, com açúcar cristal: "Tem que ser meio rala, já explico por quê."
Após uma hora, ela recolhe os cubos, lava bem "para não ficar nenhum resíduo", e está quase no ponto. "A cal queima: a abóbora é macia, fica quase cozida, e com a casca dos cubos já durinha."
A calda, completa Mabel, temperada a cravo e canela em pau, vai engrossar quando você cozinhar os cubos nela por meia hora - "sem mexer para não desmanchar e absorver bem a calda".
A criançada ansiava pelos cubos na compoteira, de um alaranjado escuro, translúcidos e crocantes. Quando você trincava, a boca se enchia da polpa, que explodia num néctar dos deuses. O que só saberíamos meio século depois, ao escrever aqui sobre abóbora, é que já se usava cal para fazer doce no tempo em que se acreditava em deuses.
Supõe-se que a abóbora seja nativa do atual México. Povos dali a conhecem há mais de sete mil anos. Junto com o milho, figuravam dieta básica de astecas e maias dos andinos incas e de nossos indígenas. Da família Cucurbitácea, é parente da melancia, do melão, do chuchu, do pepino. Entre nós tem vários nomes: abóbora-de-pescoço, abobra, jerimu, jurumu, jerimum.
É planta anual, rasteira, de talo oco e grandes folhas verdes, flores amarelas ?U alaranjadas, tamanho e formato conforme a variedade. E o maior e mais pesado fruto da natureza. No hemisfério Norte promovem concursos, num dos quais, em Ohio, Estados Unidos, apareceu um exemplar que entrou para o livro dos recordes: 850 quilos.
Quem leu Lobato na infância vai se lembrar de Américo Pisca-pisca, que queria reformar a natureza, colocando abóboras em árvore frondosa e jabuticabas em planta rasteira. Deita-se à sombra de uma jabuticabeira e, no melhor do sono, cai-lhe uma frutinha no nariz. Pisca-pisca acorda e reflete que é melhor ficar tudo como está. E ele nem imaginava que pudesse haver abóbora de quase uma tonelada. Adequada a um semnúmero de pratos salgados, a obra-prima da abóbora para nós é mesmo seu doce com cal virgem.
Sua prima Cucurbita pepo, a abóbora-moranga, entre nós famosa pelo prato litorâneo Camarão na Moranga, nos Estados Unidos, exerce papel principal no Dia das Bruxas, 31 de outubro. A garotada sai pedindo doce com uma vela acesa dentro da moranga em forma de máscara. No oriente, ela é símbolo de fecundidade e abundância, pelo mundaréu de sementes. E uma curiosidade: enquanto na França chamar alguém de moranga gourde é chamar de cabeça-oca, em regiões da África comem-se as sementes em busca de inteligência.
FONTE: REINISCH, Kátia. SEVERIANO, Mylton.Brasil: Almanaque de Cultura Popular, n. 163.
Não consta entre as propriedades da abóbora apresentadas no texto: