Para deixar todas essas coisas um pouco na sombra e poder dizer o que delas julgava, sem ser obrigado a seguir nem refutar as opiniões acatadas entre os estudiosos, resolvi deixar todo este mundo aqui para suas discussões e falar somente do que aconteceria em um novo, se Deus criasse, agora, em algum lugar, nos espaços imaginários, matéria suficiente para compô-lo e agitasse, diversamente e sem ordem, as várias partes dessa matéria, a fim de compor, com elas, um caos tão confuso quanto o imaginado pelos poetas e, depois, se limitasse a prestar seu concurso natural à natureza e a deixá-la agir segundo suas leis, que ele estabelecera. A maior parte da matéria desse caos deveria, em decorrência dessas leis, dispor-se e arranjar-se de um certo modo que a tornasse semelhante aos nossos céus, devendo algumas partes compor uma Terra, outras, planetas e cometas, e algumas outras, um Sol e estrelas fixas.
René Descartes. Discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, p. 76-77 (com adaptações).
Considerando o texto acima, extraído da obra Discurso do Método, de René Descartes, julgue o item subsequente.
Considere as seguintes informações.
Segundo o filósofo escocês David Hume, as leis que são encontradas na natureza, tais como as da elasticidade e da gravidade, são princípios gerais e “podemos considerarmonos suficientemente exitosos se conseguirmos reconduzir os fenômenos particulares a esses princípios, ou, ao menos, aproximá-los tanto quanto possível”.
Com base nessas informações e no texto apresentado e considerando, ainda, que o homem conhece a natureza a partir de inferências ou aproximações entre fatos naturais e princípios gerais, é correto afirmar que Hume defende uma concepção de leis da natureza diversa da proposta por Descartes no texto, segundo a qual as leis da natureza são da ordem do necessário e, portanto, continuariam aplicáveis mesmo se outra natureza fosse criada.