Reforma Agrária
Com coisa séria não se brinca, e o problema da reforma agrária é sério demais. Verdade é que, de tanto se falar nisso, a coisa vai caindo no terreno da galhofa. O próprio Francisco Julião afirmou certa vez que está vendo o dia em que a reforma agrária se fará, no Teatro Municipal, entre números de canto lírico...
Mas a verdade é que a reforma agrária dá margem a alguns instantes de bom humor, como tudo o que é trágico, aliás. O referido Julião – que não brinca em serviço – tem as suas piadas.
Certa vez foi chamado pelo governador de um estado importante onde começavam a se organizar ligas camponesas.
- Deputado Julião – disse o governador -, não tenho nada contra as ligas, mas quero lhe dizer que sou inteiramente contra o comunismo e não permitirei agitação no meu estado.
- Senhor governador – falou o deputado – não sei bem o que Vossa Excelência entende por agitação.
Em certos casos, é preciso agitar um pouquinho. Tanto que até alguns remédios trazem escrito na bula: agite antes de usar. Se não agitar, governador, não faz efeito...
Um episódio engraçado sucedeu em Goiás, onde agora os latifundiários e grileiros voltaram a atacar os lavradores. Certo fazendeiro, muito preocupado com a situação, resolveu dedicar-se ao esclarecimento dos agricultores que trabalhavam em suas terras, a fim de evitar que eles fossem também chamados a se integrar em alguma liga camponesa. Montou o cavalo e foi, de porta em porta, conversando como quem não quer nada.
- Juvêncio – disse a um deles -, você já ouviu falar em comunismo?
- Não, coronel.
- Comunismo, Juvêncio, é um negócio ruim como o diabo, faz você trabalhar e toma tudo o que você planta. Toma a terra, toma o porco, toma a safra.
Você não tem direito a nada.
Juvêncio, que ouvira tudo atentamente, comentou:
- Ué, coronel, então nós tamos aqui num comunismo brabo danado!
GULLAR, Ferreira: crônicas para jovens / seleção, prefácio e notas bibliográficas Antonieta Cunha.
– 1ª ed. – São Paulo: Global, 2011. (Coleção Crônicas para jovens).
Em relação à cena do diálogo entre o fazendeiro e o agricultor, é CORRETO afirmar: