Bola na bochecha da rede
Ruy Castro*
Volta e meia alguém faz um dicionário de futebol, incorporando as últimas expressões. E é bom que assim seja, porque poucos universos são tão ricos em dizer coisas velhas de um jeito novo. Um torcedor de 1999 que tenha dormido na virada do milênio e só acordado agora não entenderá metade do que os narradores e comentaristas brasileiros dizem hoje ao microfone na transmissão de uma partida. Para o benefício desse hipotético, embora improvável, torcedor, ai vai um pequeno glossário das falas atuais.
A bola de futebol não é mais o velho balão de couro, que alguns chamavam de redonda, outros de menina e às vezes ia dormir no véu da noiva, digo rede. Aliás, a bola nem é mais de couro. Continua redonda, mas ganhou uma riqueza facial digna de uma diva do teatro. Entre outras coisas, tem cara e orelha - ou assim os locutores se referem a um chute certo, " na cara da bola", ou torto, que pegou " na orelha da bola". A rede, por sua vez, agora tem bochecha - um chute bem colocado alude ao que vai para a " bochecha da rede".
Ninguém mais joga bem - "faz bom jogo". Ninguém mais entra em campo - " vem pro jogo". E ninguém mais sai - " vai embora". A " marcação alta", de que tanto se fala, é só a antiga marcação por pressão, quando os nossos atacantes vão infernizar a saída de bola do adversário. A " marcação baixa" é a velha retranca ou o velhíssimo ferrolho. O críptico " jogar entre linhas" é apenas receber a bola nas costas do adversário.
Garrincha, hoje, não seria um ponta, mas um "extremo" ou, coitado, um jogador "de beirada". E "camisa pesada" não é mais aquela antiga, de pano, que, quando chovia durante o jogo, absorvia água à beça e o jogador penava para carregar no corpo. Agora é apenas a camisa de qualquer time grande, talvez pesada de títulos.
São só novas frases feitas, como se vê. E, como sói, em breve tão antiquadas quanto chamar goleiro de quíper.
* Jornalista e escritor
Folha de São Paulo, Opinião, 20 ago. 2022, p. A 2. Adaptado.
Segundo Cegalla (2010,p.538), "conforme sua posição junto ao verbo, os pronomes oblíquos átonos podem ser proclíticos (antepostos ao verbo), mesoclíticos (intercalados no verbo) e enclíticos (pospostos ao verbo)". A esse respeito, avalie os textos seguintes.
Texto I
"Entre outras coisas, tem cara e orelha - ou assim os locutores se referem a um chute certo..."
Texto II

Disponível em: https://blogdoaftm.com.br/charge-retorno-do-futebol/
Informe se é verdadeiro (V) ou falso (F) o que se afirma sobre a colocação pronominal.
( ) Em "Não se preocupe..." (Texto II), a próclise é obrigatória pela presença de palavra que exerce atração sobre o pronome.
( ) No texto I a próclise está inadequada, pois a ênclise é de rigor junto de infinitivo flexionado, com a preposição "a" posposta ao verbo.
( ) Na frase "Vamos ter que nos mudar!" (Texto II) a próclise se justifica por exigência da ênfase, dada a presença de pronome indefinido antes do verbo.
De acordo com as afirmações, a sequência correta é