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724892 Ano: 2015
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CESPE / CEBRASPE
Orgão: UnB
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Seu rosto lembrava o dos índios sul-americanos mal-encarados das aventuras do Tintim. O nariz adunco, a testa avançada sobre os olhos fundos, as faces encovadas entre os cabelos pretos e lisos que caíam até os ombros. Era difícil entender o que aquela gente queria. Leusipo perguntou o que eu tinha ido fazer na aldeia. Preferi achar que o tom era amistoso e, no meu paternalismo ingênuo, comecei a lhe explicar o que era um romance.
(...)

Não sorria, não demonstrava nenhum gesto ou expressão de simpatia. Tinha um olhar impassível e determinado. O motivo da sua visita era me encurralar. Repetia: “Os velhos estão preocupados”. E eu pensava comigo: “O idiota deve ter ouvido alguma coisa e resolveu tomar a iniciativa de me pedir satisfação”. As minhas explicações sobre o romance eram inúteis. Eu tentava dizer que, para os brancos
que não acreditam em deuses, a ficção servia de mitologia, era o equivalente dos mitos dos índios, e antes mesmo de terminar a frase, já não sabia se o idiota era ele ou eu. Ele não dizia nada a não ser: “O que você quer com o passado?”. Repetia. E, diante da sua insistência bovina, tive de me render à evidência de que eu não sabia responder à sua pergunta. Não conseguia fazê-lo entender o que era ficção (no fundo, ele não estava interessado), nem convencê-lo de que o meu interesse pelo passado não teria consequências reais, no final seria tudo inventado.

Bernardo Carvalho. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2002 (com adaptações).

Tendo como referência o fragmento acima, do romance Nove noites, de Bernardo Carvalho, julgue os seguintes itens.

A discussão do estatuto da ficção em Nove noites reitera a metalinguagem como um dos recursos mais utilizados na literatura contemporânea, quando se busca investigar os sentidos da ficção no âmbito da narrativa ficcional.

 

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