Luana
Luana chega pé ante pé, como uma sombra, perto de Thomas.
- Padre, padre, tô indo embora ...
- Pra onde, Luana? Onde você estava?
- Andei por aí, me escondendo. Vou pra rodoviária, dar um tempo. Não posso mais ficar aqui.
O Gibi vai me achar. Não tem jeito, não. Ele vem, vai arrebentar a turma e ainda vai apagar alguém com o 38. Não dá.
- Luana, o que ele quer?
Thomas intui que, por trás da tal história de paixão, Gibi queria alguma coisa.
- Ele diz pra todo mundo que é por causa da transa, mas não é, não. Eu sou pequena, esperta e abro um carro assim - estalava os dedos - daí ele puxa. Mas tô com medo. A barra tá pesada. Não quero mais voltar pra ele. Não quero. Tenho medo dele, que quase já me arrebentou, e da polícia.
- Vai pra Triagem, Luana.
- Não, ele descobre. Tem sempre alguém lá dentro pra cantar a bola. Tenho que ficar rodando.
Quando acalmar, aí eu vou.
- Está bem. Vou ficar de olho na Triagem pra saber de sua chegada. Aí falo com a assistente social, vou te ajudar.
- Se alguém abrir a boca aqui, o Gibi vai me buscar até no inferno. Por enquanto, tá limpo. Falei com a Madá, o Mocotó e o Fedelho, e eles vão segurar essa. Tchau, padre. Me ajuda.
- Está bem, Luana. E sossega, ninguém vai contar onde você está.
Thomas sente a esperança fugir do seu espírito.
"Como livrar essas crianças desse submundo, da violência dos adultos e protegê-las? Lua na tinha só treze anos, meu Deus, e estava sendo perseguida por uma quadrilha que não lhe daria trégua. Tinha que encontrar uma forma de tirá-la de São Paulo, levá-la para alguma instituição do interior, alertar o Juizado e denunciar Gibi. Sabia dos riscos, mas iria conseguir. Por enquanto ela se safaria, rodando para ganhar tempo. Avisaria a todos os educadores de rua, as associações, para que a menina recebesse proteção."
Thomas segura a cabeça entre as mãos e chora em silêncio, este era o pior Natal de sua vida. Não havia paz nem alegria. Perguntava-se como pudera, durante tantos anos, ter celebrado a missa e convivido com a família e amigos sem se inquietar com o Natal dos outros. Revê as noites na periferia, com gente pobre, boa, convivendo nos salões paroquiais para a divisão dos salgadinhos, após a Missa do Galo.
[...]
(Leila Rentroia lannone. Eu gosto tanto de você ... São Paulo, Moderna, 1988. p. 26-8, Coleção Veredas.)
O texto é bastante marcado por linguagem informal. A opção que traz um exemplo de tom mais formal é: