Escrever é fácil?
Para estimular crianças e jovens a escrever, há
quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o
que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém,
este estímulo é deveras desestimulante.
Há boas explicações para o desestímulo: se a
pessoa não consegue escrever, convencê-la de que
escrever é fácil na verdade a convence apenas da
sua própria incompetência, a convence apenas de
que ela nunca vai conseguir escrever direito; não
se escreve pondo no papel o que está na cabeça,
sob pena de ninguém entender nada; quem escreve
profissionalmente nunca acha que escrever é fácil,
nem mesmo quando escreve há muito tempo — a não
ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo
frases e fórmulas.
Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona
para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não
funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito,
tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso
próprio pensamento, precisamos expressá-lo para
outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento
segundo um código comum e então, finalmente, o
entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o
jagunço Riobaldo, personagem do escritor Guimarães
Rosa, dizia: professor é aquele que de repente aprende.
Todo professor conhece este segredo: você
entende melhor o seu assunto depois de dar sua
aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu
tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco,
aumento exponencialmente a minha compreensão
a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e
até de estupor dos alunos, refino minhas explicações
e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria
dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de
profissão, gosto muito de dar aula, principalmente
porque ensinar ainda é o melhor método de estudar
e compreender.
Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a
um grupo de alunos que não conheço, pelo menos
no começo dos meus cursos, quem escreve o faz
para ser lido por leitores que ele potencialmente não
conhece e que também não o conhecem. Mesmo
ao escrever um diário secreto, faço-o imaginando
um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos,
ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro
e do leitor para entender a mim mesmo e, em última
análise, para ser e saber quem sou.
Exatamente porque esta relação com o outro,
aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente
um frio na espinha quando encontra uma nova turma,
não importa há quantos anos exerça o magistério.
Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até
começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou
vagando pela internet, não importa quantos livros já
tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno
não quer que ninguém leia sua redação enquanto a
escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha
de redações na mesa do professor, não importa se
suas notas são boas ou não na matéria.
Escrever definitivamente não é fácil, porque nos
expõe no momento mesmo de fazê-lo. [...] Quem
escreve sente de repente todas as suas hesitações,
lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio
pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa
pensar. Quem escreve de repente entende o quanto
a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o
quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim:
se reescrever.
BERNARDO, G. Conversas com um professor de literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Adaptado.
Observa-se expansão de significado mais concreto para outro, mais abstrato, em: