Magna Concursos
146405 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: CESGRANRIO
Orgão: CEFET-RJ
Provas:

Escrever é fácil?

Para estimular crianças e jovens a escrever, há

quem diga que escrever é fácil: basta pôr no papel o

que está na cabeça. Na maioria das vezes, porém,

este estímulo é deveras desestimulante.

Há boas explicações para o desestímulo: se a

pessoa não consegue escrever, convencê-la de que

escrever é fácil na verdade a convence apenas da

sua própria incompetência, a convence apenas de

que ela nunca vai conseguir escrever direito; não

se escreve pondo no papel o que está na cabeça,

sob pena de ninguém entender nada; quem escreve

profissionalmente nunca acha que escrever é fácil,

nem mesmo quando escreve há muito tempo — a não

ser que já escreva mecanicamente, apenas repetindo

frases e fórmulas.

Via de regra, nosso pensamento é caótico: funciona

para alimentar nossas decisões cotidianas, mas não

funciona se for expresso, em voz alta ou por escrito,

tal qual se encontra na cabeça. Para entender o nosso

próprio pensamento, precisamos expressá-lo para

outra pessoa. Ao fazê-lo, organizamos o pensamento

segundo um código comum e então, finalmente, o

entendemos, isto é, nos entendemos. Não à toa o

jagunço Riobaldo, personagem do escritor Guimarães

Rosa, dizia: professor é aquele que de repente aprende.

Todo professor conhece este segredo: você

entende melhor o seu assunto depois de dar sua

aula sobre ele, e não antes. Ao falar sobre o meu

tema, tentando explicá-lo a quem o conhece pouco,

aumento exponencialmente a minha compreensão

a respeito. Motivado pelas expressões de dúvida e

até de estupor dos alunos, refino minhas explicações

e, ao fazê-lo, entendo bem melhor o que queria

dizer. Costumo dizer que, passados tantos anos de

profissão, gosto muito de dar aula, principalmente

porque ensinar ainda é o melhor método de estudar

e compreender.

Ora, do mesmo jeito que ensino me dirigindo a

um grupo de alunos que não conheço, pelo menos

no começo dos meus cursos, quem escreve o faz

para ser lido por leitores que ele potencialmente não

conhece e que também não o conhecem. Mesmo

ao escrever um diário secreto, faço-o imaginando

um leitor futuro: ou eu mesmo daqui a alguns anos,

ou quem sabe a posteridade. Logo, preciso do outro

e do leitor para entender a mim mesmo e, em última

análise, para ser e saber quem sou.

Exatamente porque esta relação com o outro,

aluno ou leitor, é tão fundamental, todo professor sente

um frio na espinha quando encontra uma nova turma,

não importa há quantos anos exerça o magistério.

Pela mesma razão, todo escritor fica “enrolando” até

começar um texto novo, arrumando a escrivaninha ou

vagando pela internet, não importa quantos livros já

tenha publicado. Pela mesmíssima razão, todo aluno

não quer que ninguém leia sua redação enquanto a

escreve ou faz questão de colocá-la debaixo da pilha

de redações na mesa do professor, não importa se

suas notas são boas ou não na matéria.

Escrever definitivamente não é fácil, porque nos

expõe no momento mesmo de fazê-lo. [...] Quem

escreve sente de repente todas as suas hesitações,

lacunas e omissões, percebendo como o seu próprio

pensamento é incompleto e o quanto ainda precisa

pensar. Quem escreve de repente entende o quanto

a sua própria pessoa é incompleta e fraturada, o

quanto ainda precisa se refazer, se inventar, enfim:

se reescrever.

BERNARDO, G. Conversas com um professor de literatura. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. Adaptado.

A expansão do significado mais concreto das palavras é recurso largamente utilizado.

Observa-se expansão de significado mais concreto para outro, mais abstrato, em:
 

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