Texto 1
Xixi na Calça
01 Aos nove anos, eu tinha uma professora muito brava. Não sem motivo. Boa parte dos
alunos pedia para ir ao banheiro somente para fugir. Eu era dos mais quietinhos. Certo dia
me deu uma vontade tremenda de fazer xixi. Ergui o braço. Era o terceiro querendo sair.
Ouvi um sonoro “não”. Foi um desespero. Tentava segurar a vontade. O final do período
05 se aproximava. Torcia as pernas e me remexia. Os minutos pareciam mais lentos!
De repente, aconteceu!
Senti um calorzinho nas pernas e uma bruta sensação de alívio. Relaxei. Minhas
calças, minhas meias, molhadas! Ainda tive esperança. Minha carteira era ao lado da
parede. Talvez ninguém notasse a enorme poça embaixo dos meus pés! [...]
10 Tocou o sinal. Peguei a mochila. Meias pingando, uma enorme roda úmida no
bumbum!
A infância é cruel. Saí da classe com a molecada gritando atrás:
- Ele fez xixi na calça! Ele fez xixi na calça! [...]
Corri ainda mais depressa! Nunca, nunca mais queria voltar às aulas!
15 Mamãe tinha um pequeno bazar. Morávamos nos fundos. Entrei pela loja. Ela estava
sozinha no balcão. Lamentei-me angustiado.
- Fiz xixi na calça!
- É brincadeira? - espantou-se.
Mostrei. Preparei-me para a bronca. Minha sensação era de culpa, pavor! Mas
20 mamãe ficou calma.
- Então depressa. Toma um banho! Ponha uma roupa limpa!
Deu uma fugidinha da loja. Botou a calça de molho. Serviu o almoço. De tanta
angústia, eu quase chorava:
- Nunca, nunca mais eu vou para a escola! Vou parar de estudar!
25 Ela brincou com meus cabelos. [...] Aos poucos me acalmou, porque eu estava
muito nervoso. Transformou o drama em brincadeira. De noite, quando papai chegou
voltou ao assunto. Até consegui dar risada.
Estava certa. Ninguém continuou me infernizando. Não fui o primeiro, nem o
último, a fazer xixi em plena aula!
30 Agora, depois de tanto tempo, lembro das vezes que desabafava com ela. Também
era ótimo dividir os grandes momentos. [...]
s vezes, quando acontece uma coisa importante, meu primeiro impulso é lhe
telefonar. Em seguida, meu coração se aperta. Lembro que não está mais do outro lado.
Como posso esquecer, até por um instante? Descobri o motivo. Podia contar com mamãe,
35 como os filhos nunca deixam de contar. Ela ficaria do meu lado, como no dia em que fiz
xixi na calça! Não é a memória que me trai, mas saudade. Seu amor deixou uma lacuna
que nunca vou preencher. Seja algo bom ou ruim, sempre terei vontade de compartilhar
com ela.
Adaptado. CARRASCO, Walcyr. Histórias para a sala de aula: crônicas do cotidiano. Ia edição.São Paulo: Moderna, 2009. (Coleção Veredas).
Responda os itens de 1 a 9 de acordo com o Texto 1.
“Mostrei. Preparei-me para a bronca. Minha sensação era de culpa, pavor! Mas mamãe ficou calma.” (linhas 19 e 20). Qual das alternativas abaixo mantém o mesmo sentido do fragmento acima?