Como estranhar que haja aqui, sobrenadando em toda expressão, um ânimo nacional?... Brasileiro... Brasil...! Por que não no amar, constante, bem explicitamente, dolorosa, ou voluptuosamente, como à essência de mim mesmo, e à vida a que me pego?... Chamem-me latino, ocidental... O que me está na voz percebida e entendida será isto mesmo, pois que só traduz insuficiência de expressão, para uma mentalidade e um tom de sentimento jamais encontrados nas muitas páginas que li e nas gentes estranhas com quem tratei. De fato, procurei nutrir o espírito e ter matéria de pensamento a par do meu século; camadas e camadas se depositaram, assim, sobre a mente primitiva. Mas, quando me vem o momento de pensar pensamento realmente meu e, sobretudo, quando me fala o recôndito sentimento, encontro-me com o nódulo do meu ser, fórmula de mim mesmo, em que me reconheço desde que se me iluminou a consciência: a alma banalmente simples e, por isso, intensa e livre, a mesma em que vivi a vida sincera e estuante de ontem, única — inteira e completa, de quando afrontava a experiência na solidez de perfeita unidade espiritual.
Ora, essa unidade, em que me reconheço, é aquilo mesmo que, na consciência, reflete a singela tradição nacional dos meus dias de infância e de adolescência. (...)
Manoel Bonfim. O Brasil na América. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, 2.ª edição, p. 28-9.
Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, assinale a opção correta.