SARNA PARA SE COÇAR
A palavra “estresse” virou uma grande vilã dos tempos modernos. Injustamente, eu diria – porque o estresse não é uma coisa só. Para começar, deve-se separar o estresse (um problema a resolver) da resposta ao estresse (as mudanças que o cérebro orquestra no corpo, e nele mesmo, para resolver o problema). E como gostamos de um problema! A resposta aguda, imediata, ao estresse – a atenção aumentada, a maior disposição, a mobilização de reservas de energia e a sensação de força que vem com ela – tem tudo para ser uma grande aliada, pois aumenta nossas chances de resolver o problema da vez.
Até a resposta dada agora ao problema de amanhã (o relatório a entregar, a conta por pagar), mais conhecida pelo nome de “ansiedade”, tem lá suas vantagens: começando a nos preocupar agora, temos mais chances de nos lembrar do problema a resolver e ainda ganhamos um tempo para pensar em estratégias e alternativas.
O lado ruim do estresse surge quando, apesar de toda a preparação de cérebro e corpo para resolver o assunto, o problema não some. Assim, o estresse torna-se crônico: abusos físicos ou verbais, a falta de dinheiro que não se resolve, a doença que não cede, a solidão. Nesses casos em que suas tentativas iniciais falharam, o cérebro, sem controle da situação, muda de estratégia e, ao invés de usar as reservas disponíveis, passa a armazená-las. Aqui, sim, a resposta crônica ao estresse torna-se nociva, com acúmulo de gordura, hipertensão, desgaste mental e risco aumentado de transtornos de humor e de ansiedade.
Mas a maior parte dos estresses da vida são pequenos e, sobretudo, voluntários.
E como gostamos de arranjar pequenos problemas para resolver! Ao nosso alcance, nem fáceis demais nem difíceis demais, os problemas que nós mesmos nos colocamos nos deixam no controle da situação – algo que o cérebro adora. Não é surpresa que seja tão difícil ficar à toa. Por que mais compraríamos palavras cruzadas ou revistinhas de lógica para resolver no ônibus ou no avião, ou montaríamos quebra cabeças, se não pelo prazer de ter um problema para resolver? O cérebro, pelo visto, adora arranjar sarna para se coçar...
HERCULANO-HOUZEL, Suzana. Jornal Folha de S.Paulo. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2805200909.htm> Acesso em 04/11/2016 (adaptado).
Há certos recursos da linguagem – pausa, melodia, entonação e até mesmo silêncio – que só estão presentes na oralidade. Na linguagem escrita, para substituir tais recursos usamos os sinais de pontuação. Atente às considerações abaixo acerca da redação do texto proposto:
I) O emprego das aspas nesse texto foi realizado, em ambas as situações, por razões semânticas e gramaticais distintas.
II) A construção oracional que aparece entre os travessões está, semanticamente, na função de apresentar as reações imediatas dadas pelo cérebro diante do estresse.
III) Os dois-pontos têm a função de trazer, na sequência, o argumento sobre a vantagem de uma pessoa ter ansiedade.
IV) O trecho “o cérebro, sem controle da situação, muda de estratégia” poderia ser corretamente escrito sem o uso de ambas as vírgulas, não havendo qualquer alteração semântica ou sintática.
V) O uso do ponto de exclamação traduz a carga emotiva da autora do texto ao expor sua opinião acerca do assunto abordado.
Estão CORRETAS as assertivas expostas nos itens: