Quem não gosta de samba.
– Como ritmos e melodias, embora tão somente sons, se assemelham a estados da alma?, pergunta Aristóteles. Há pessoas que não suportam a música; mas há também uma venerável linhagem de moralistas que não suporta a ideia do que a música pode suscitar nos ouvintes. Devido à sua perturbadora sensualidade, Platão condenou certas escalas e ritmos musicais e propôs que fossem banidos da pólis; Agostinho confessou-se vulnerável aos “prazeres do ouvido” e se penitenciou por sua irrefreável propensão ao “pecado da lascívia musical”; Calvino alerta os fiéis contra os perigos do caos e volúpia que ela provoca; Descartes temia que a música pudesse superexcitar a imaginação; Adorno viu na ascensão do jazz americano no pós-guerra um sintoma de regressão psíquica e de “capitulação diante da barbárie”. – O que todo esse medo da música sugere? O vigor e o tom dos ataques traem o melindre. Eles revelam não só aquilo que afirmam, mas também o que deixam transparecer. O pavor pressupõe uma viva percepção da ameaça. Será exagero portanto detectar nesses ataques um índice da especial força da sensualidade justamente naqueles que tanto se empenharam em preveni-la e erradicá-la nos outros? O que mais violentamente repudiamos está em nós mesmos. Por vias oblíquas ou com plena ciência do fato, eles sabiam do que estavam falando.
(Adaptado de: GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, edição digital)
Transpondo-se para a voz passiva o segmento O vigor e o tom dos ataques traem o melindre, a forma verbal resultante será: