Leia o texto para responder às questões de números 45 a 50.
Eram dez horas da noite. Aurélia, que se havia retirado mais cedo da saleta, trocando com o marido um olhar de inteligência, estava nesse momento em seu toucador, sentada em frente à elegante escrivaninha de araribá cor-de-rosa, com relevos de bronze dourado a fogo.
A moça trazia nessa ocasião o mesmo roupão de cetim verde cerrado à cintura por um cordão de fios de ouro da noite do casamento, e que desde então ela nunca mais usara. Lembrara-se de vesti-lo de novo, nessa hora na qual a crer em seus pressentimentos iam decidir-se afinal o seu destino, e a sua vida.
A moça reclinara a fronte sobre a sua mão direita. Estava absorta em uma profunda cisma, da qual a arrancou o tímpano da pêndula soando as horas.
Ergueu-se então, e tirou da gaveta uma chave, atravessou a câmara nupcial, e abriu afoitamente aquela porta que havia fechado onze meses antes, num ímpeto de indignação e horror.
Empurrando a porta com estrépito de modo a ser ouvida no outro aposento, e prendendo o reposteiro para deixar franca a passagem, voltou rapidamente, depois de proferir estas palavras:
– Quando quiser!
Fernando, ao penetrar nessa câmara nupcial, esqueceu um momento a pungente recordação que ela devia avivar, e que parecia ter-se apagado com a escuridão. O que ele sentiu foi a fragrância que ali recendia, e que o envolveu como a atmosfera de um céu do qual ele era o anjo decaído.
(José de Alencar, Senhora, São Paulo: Ática, 2000. Adaptado)
As ações da heroína, no momento em que vai dar a Fernando acesso ao aposento da reunião, demonstram que ela