Leia o texto a seguir.
Cheio de nove horas
O indivíduo cheio de nove horas é aquele “cheio de frescuras, de manias, de idiossincrasias, de salamaleques”, numa associação que à primeira vista parece misteriosa: por que nove horas?
Bom, à segunda vista, o mistério permanece. terceira também está lá, firme.
A verdade é que seria difícil desvendá-lo sem o conhecimento de que o limite das nove horas da noite era “a hora clássica do século XIX, regulando o final das visitas, ditando o momento das despedidas”. Qualquer um que teimasse em ficar na rua depois disso poderia ser “apalpado e revistado” pela polícia, e “apenas os boêmios, notívagos impenitentes, teimavam em afrontar os perigos da noite, da polícia, dos ladrões e capoeiras esfaimados”.
Quem nos esclarece sobre o velho costume é o imprescindível Câmara Cascudo no livro Locuções tradicionais do Brasil. O mesmo que explica o que isso tem a ver com a expressão idiomática: Criou-se, no século XIX, a figura sestrosa, cerimoniática, meticulosa, do Cheio de Nove Horas, criatura infalível em citar regras, restrições, limites às alegrias dos outros, memorialista dos pecados alheios, fiel lembrete aos códigos e regulamentações, imperativas e dispensáveis, complicando as cousas simples.
(RODRIGUES, Sérgio. Viva a língua brasileira! Uma viagem amorosa, sem caretice e sem vale-tudo, pelo sexto idioma mais falado do mundo – o seu. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.)
De acordo com o texto, o indivíduo “cheio de nove horas”, é: