Cordeiros: um documentário na fronteira
Estima-se que cerca de 80 mil pessoas — homens e mulheres —, na sua maioria, negras, moradoras dos subúrbios da cidade, trabalham no carnaval de Salvador, sustentando as cordas para a delimitação do espaço a ser ocupado pelos blocos nas ruas.
É trabalho do cordeiro empurrar de volta à calçada qualquer um que, sem ter pago a credencial de entrada no bloco (o abadá), tente brincar em um espaço que é público — a rua —, mas que, durante o carnaval, é comercializado pelos blocos carnavalescos. Cordeiro é, portanto, uma função temporária constituída pela industrialização do carnaval, pela privatização da festa popular de rua. Os corpos dos cordeiros consolidam a fronteira entre quem consome e quem não consome — uma fronteira visível também na cor da pele. Assim, os cordeiros se situam nas trincheiras da disputa pelo exíguo território das avenidas, cuja divisão obedece a complicadas relações de poder e reflete as desigualdades que caracterizam a geografia e a estrutura social da cidade de Salvador.
Assim, os cordeiros vão sendo condenados ao silenciamento e à invisibilidade e vão trabalhando do lado de fora do “acontecimento”, vão habitando a condição de não-existência. Isso porque as imagens e as falas dos cordeiros impossibilitam a afirmação do discurso da democracia racial carnavalesca, do discurso da alegria sem fronteira.
Irohin. Comunicação a serviço dos afro-brasileiros.
Ano XIII, n.º 22, 2008 (com adaptações).
Considerando o texto a cima e os diferentes aspectos relacionados ao tema por ele abordado, julgue o seguintes item.
Apesar de o título apresentar imprecisão quanto ao uso da palavra “Cordeiros”, o texto mostra como, em um conjunto de possíveis significações, a organização textual pode controlar ambigüidades e orienta para a escolha da acepção contextualmente coerente: cordeiro é aquele que tem a função de sustentar as cordas que delimitam o espaço a ser ocupado pelos blocos nas ruas durante a festa de carnaval em Salvador.