Não é fácil decidir se nossa época se caracteriza pelo excesso ou pela míngua de crença. Enquanto o século XVIII ficou marcado pelo racionalismo filosófico e revolucionário, e o século XIX pelo cientificismo e a ideia socialista, o período em que vivemos não logrou ainda definir-se como um tempo ateu, místico, idealista, materialista, hedonista, surrealista, infantil, bárbaro. Engajado em todos os rumos, nosso tempo, não se entregou a nenhum deles, como os amantes se entregam no ato amoroso.
Contudo, certas formas de encantamento que observamos na vida contemporânea parecem confirmar a verdade de que o homem é um animal religioso. Copiando a religião no seu natural fervor e na doação total do indivíduo a uma verdade absoluta, o homem de hoje, na espécie a que nos referimos, chega a copiá-la nas suas deformações mais evidentes, como sejam a intolerância e o fanatismo. Estas, como se sabe, eram palavras do vocabulário religioso, ou melhor, do vocabulário que exprime a exacerbação do espírito religioso, às turras com os próprios religiosos não-ortodoxos ou com o simples incréu.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Crônica “Reflexões sobre o fanatismo”, in: Passeios na ilha. Texto adaptado.)
Assinale a alternativa que reproduz parte do texto em que se observa vírgula cujo uso NÃO pode ser justificado: