Homo Sedens
Tratar o ato de sentar como uma questão culturalmente relevante pode soar como mera
brincadeira. Quem, começando a levá-la a sério, se perguntar “quanto tempo de nossas vidas
passamos sentados?” ou “quantas cadeiras há no mundo?”, por mais que consiga respostas
estatisticamente impressionantes, não terá, contudo, atingido o cerne da questão inusitada que
5 nos faz pensar nas formas assumidas pelo sedentarismo como caráter da cultura. Na contramão
do nomadismo, o sedentarismo faz parte da história de nossa civilização. Mais do que parte da
história, é uma postura que caracteriza nosso tempo presente. A maior parte de nossos gestos
corporais acaba no assento; passamos muitas horas do dia sentados, tudo, em nossas vidas,
convida-nos a sentar. Mas esse convite agradável ao descanso tem significados mais complexos:
10sentamos em casa, na rua, nas escolas, sentamo-nos diante de máquinas; sobretudo, hoje em
dia, sentamo-nos diante de telas.
Norval Baitello Junior, professor da PUC de São Paulo, escreveu, em seu livro O
pensamento sentado (Unisinos, 2012), sobre o lugar do “assento” em uma cultura sedentária. Sua
crítica vai na direção de um pensamento sentado que, para ele, seria o pensamento acomodado.
15 Recuperando a expressão alemã usada por Nietzsche para falar da “vida sedentária” – Sitzfleisch
– ele explora a tradução por “carne de assento” que, literalmente, leva à usual “bunda”. Bunda
tem um vasto alcance no Brasil. Mesmo que soe deselegante, não seria um erro considerar a
atualidade de um “pensamento-bunda”, aquele pensamento cansado que, no extremo, expressa o
que entendemos no cotidiano, no âmbito da irresponsabilidade do “bundão”.
20 O caráter “assentado” é o da “discursividade previsível e acomodada”, a que reduz o ato
de pensar em nossa época, contra sua natureza mais íntima. O “decréscimo da mobilidade” do
corpo é, segundo ele, também do pensar, cuja imprevisibilidade e capacidade de surpreender
estariam em baixa. Conhecemos essa acomodação, sabemos que ela é necessária ao poder, ao
sistema econômico e político, que esperam corpos dóceis e mentes paradas, repetindo
25 acomodadamente mais do mesmo que mantém tudo no mesmo lugar: sentado.
Pensar na reflexão aos saltos do livro de Baitello é uma atitude dinâmica, como seria o
movimento de nosso corpo, inquieto e propenso a caminhar, pular, correr e saltar. A capacidade
humana, que está ligada a todo o nosso processo de aprendizagem em relação à vida, de
explorar o entorno, é diminuída quando tudo se reduz a “assento”. O primata que somos se
30 ressente de não poder mover-se.
Baitello nos lembra que sentar e sedar têm a mesma origem etimológica: sedere. Assim,
comentando que somos “Homo sedens”, a atrofia dos músculos e dos movimentos surge
como uma espécie de regra da cultura. Quando observamos o nosso dia a dia, sentados por todos
os lados, diante de computadores, da televisão, dentro de carros, temos certeza que a mobilidade
35 corporal que nos caracterizaria, e que ainda se coloca como nossa potência, cede lugar à
estranha mobilidade incorporal da máquina. As máquinas se movem em nosso lugar, tornamo-nos
imóveis: esperamos sentados a máquina que nos substitui. De certo modo, participamos
passivamente de um “devir” imóvel, que não nos leva a lugar nenhum, senão àquele onde já
fomos previamente postos.
40 Por fim, forçados a sentar, vivendo o elogio da disciplina, resistimos enquanto seres
sentados em nome de um esforço. Valorizamos aquele que consegue aguentar a sala de aula, a
cadeira no trabalho burocrático.
Somos, por fim, vítimas do que Baitello apontou como uma “conjunção perversa”, em que
o sedentarismo de nossos corpos alia-se à hiperatividade visual. Anestesiados diante das
45 máquinas, vivemos na direção contrária de nossa própria capacidade nômade.
Talvez fugir desse mundo seja um desejo soterrado por cadeiras numa avalanche mole
ao qual nosso corpo se adequa por ter medo de seus próprias potências. Bom lembrar que fugir é
sempre um direito.
TÍBURI, Márcia. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/11/homo-sedens/.
Acesso em 3 de março de 2014.
No período “De certo modo, participamos passivamente de um ‘devir’ imóvel, que não nos leva a lugar nenhum, senão àquele onde já fomos previamente postos.” (l. 37-39), a palavra destacada é: