Magna Concursos
2568338 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: BM-RS
Provas:

Modernidade de ocasião

Por M. Medeiros

Refleti cinco minutos sobre a questão e cheguei à conclusão óbvia: na dificuldade de serem menos mordazes, os jovens reforçam sua superioridade sobre os caquéticos [I] e mantêm a classificação de certo e errado sob seu domínio.

Eu devia ter uns 14 anos e estava numa festa em que meus pais também estavam. Até que tocou uma música. Percebi que era da banda preferida deles. Então olhei para o meio do salão e, ato contínuo, tapei os olhos, abrindo uma fresta entre os dedos para ter certeza: eles estavam dançando. Meu pai, minha mãe. Dois matusaléns [I] beirando os 40 anos, parecendo um casal de travoltas. Que mico. Aliás, naquela época não se dizia “que mico”. Não lembro a expressão que se usava para a sensação de querer cavar um buraco e sumir. Será que minhas amigas estavam percebendo o “tio” e a “tia” jogando a cabeça para trás e os braços para o alto? Acho que não, elas deviam estar chocadas com os próprios pais, que também combatiam a morte ao som dos Bee Gees. Hoje esse constrangimento adolescente tem nome: cringe.

É uma gíria americana que está sendo utilizada para determinar algo que nos faz sentir vergonha alheia. Crítica sumária aos mais velhos, tipo ver a prima de 26 anos postando uma dancinha do Tik Tok ou sua mãe escrevendo “tipo” em vez de “como”.

Mais essa para o museu de grandes novidades. Se avexar [II] com o comportamento de quem nos antecedeu é um costume clássico. O tribunal do mundo e seu júri impiedoso: olha a coitada que ainda mantém um perfil no Face, olha a calça skinny daquela grandona, olha essa gente que ainda é fã do Harry Potter, olha a millennial viciada em café. Cringe.

Minha filha considera vergonhoso à beça [III] usar palavras em inglês cujo vocábulo equivalente está disponível em nosso dicionário. E a outra filha desmaia cada vez que retiro um “à beça [III]” do baú. As duas ficaram um tanto preocupadas quando comentei que estava pensando em escrever sobre esse assunto.

Ninguém escapa. Você também será cringe por usar a roupa errada, assistir à série errada, defender a causa errada, nascer no ano errado. Refleti mais cinco minutos sobre a questão e me deparei com a conclusão óbvia: na dificuldade de serem menos cruéis, os jovens renovam o vocabulário, reforçam sua superioridade sobre os caquéticos [I] e mantêm a classificação de certo e errado sob seu domínio. Quem for diferente da sua tribo lhes parecerá sem noção e os envergonhará, e suas próprias manias e esquisitices envergonharão os que vierem logo depois. E assim caminha a humanidade, com as gerações indefinidamente ruborizando umas às outras.

Nós, os maduros de 50 e tantos, os coroas de 60+, observamos, a uma distância segura, esses recursos linguísticos pretensamente modernos, porém fadados ao desgaste e à substituição, e às vezes até adotamos a mesma linguagem, pegando uma carona no frescor juvenil. Mas nada como a atemporal liberdade de expressão em suas variadas formas: se a música é boa e o amanhã não existe, é nós na pista, jogando a cabeça para onde quisermos e os braços para o alto, pensem o que pensarem.

(Texto especialmente adaptado para esta prova).

Avalie as assertivas a seguir, relativas a determinados vocábulos utilizados no texto.

I. ‘caquéticos’ tem o mesmo significado que ‘matusaléns’, podendo um vocábulo ser utilizado em lugar do outro sem causar incorreção aos momentos do texto em que ocorrem.

II. O vocábulo ‘avexar’ poderia ser substituído por ‘sujeitar’, mantendo-se o mesmo sentido e a correção gramatical.

III. A expressão ‘à beça’, utilizada no quinto parágrafo, significa em grande quantidade, podendo ser substituída, correta e adequadamente, por ‘à farta’.

Quais estão corretas?

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Soldado - Nível III

50 Questões