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1019362 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: AOCP
Orgão: UFBA
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[...]

— Exatamente — disse a raposa. — Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo.

— Começo a compreender — disse o pequeno príncipe. — Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...

— É possível — disse a raposa. — Vê-se tanta coisa na Terra...

— Oh! Não foi na Terra. — disse o principezinho.

A raposa pareceu intrigada:

— Num outro planeta?

— Sim.

— Há caçadores nesse outro planeta?

— Não.

— Que bom! E galinhas?

— Também não.

— Nada é perfeito — suspirou a raposa.

Mas a raposa retornou a seu raciocínio.

— Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram de coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:

— Por favor... cativa-me! — disse ela.

— Eu até gostaria — disse o principezinho

—, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.

— A gente só conhece bem as coisas que cativou — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!

— O que é preciso fazer? — perguntou o pequeno príncipe.

— É preciso ser paciente — respondeu a raposa. — Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentará um pouco mais perto.

No dia seguinte o príncipe voltou.

— Teria sido melhor se voltasses à mesma hora — disse a raposa. — Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.

— Que é um "ritual"? — perguntou o principezinho.

— É uma coisa muito esquecida também – disse a raposa. — É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adoram um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!

[...]

Fonte: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Tradução
de Dom Marcos Barbosa. 41 ed. Rio de Janeiro: Agir, 1994).

Levando em consideração o excerto retirado do livro “O pequeno príncipe”, julgue, como VERDADEIRO ou FALSO, o item a seguir.

A palavra “ritual” é utilizada no texto para se referir aos costumes ou às rotinas fixas no sentido de conjunto de ações, gestos e/ou palavras utilizados em determinadas situações para se atingir objetivos específicos.

 

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