Magna Concursos
1775052 Ano: 2008
Disciplina: Português
Banca: UFF
Orgão: Pref. Aracaju-SE
UM AVÔ E SEU NETO
Esta é uma história muito simples. Fala do amor entre um avô e um neto. Assim como a magia que existe entre a noite e a lua. Os avôs sabem de muitas coisas. Os avôs guardam a infância deles na memória. Com seus rios azuis, suas ruas de barro, chapéus, cavalos, lampiões. Um mundo tão antigo que já quase não cabe mais nesse nosso mundo.
Quando um avô morre, esse mundo antigo morre com ele. E todos os cavalos, rios azuis, ruas de barro. Por isso, eu particularmente acho que os avôs nunca deviam morrer. Mas para que as coisas que eles guardam lá no fundo deles, a poeira encantada de outros tempos não desapareça completamente, existem os netos. E assim como às vezes a gente para pra ver uma estrela ou um pássaro, alguns netos param pra ouvir essa música secreta que sai de dentro dos avôs. Eles viveram uma vida inteira, e quantas malas e armários poderiam encher com suas aventuras?
O avô tinha a barriga grande. O neto achava que tinha um sol lá dentro. Ou uma fábrica de alegria. O avô ria tanto. Um dia o avô parou de trabalhar. Era como se a barriga tivesse diminuído ou uma nuvem tivesse tampado o sol. E passava a mão nos cabelos do peito do avô. Os avôs são tão lindos com seus cabelos brancos. Quando estava feliz contava histórias malucas. De elefantes cantores de ópera, de crocodilos vendedores. Mas quando o avô se lembrava que não precisava mais trabalhar, que se não fizesse bastante barulho ninguém ia se lembrar dele, aí só contava história da sua vida. O neto ouvia. De um país lá longe. Tão longe que tinha que atravessar o mar.
Fazia frio nesse país. Nessa época o avô era criança, era pobre. O pai dele tocava violino. Um tio morava numa casinha branca no alto de uma colina. O tio fazia panelas de barro.
Um dia, o avô que nesse país lá longe era criança, foi visitar o tio que morava na colina. Tinha que atravessar a cidade inteira. O tio era esquisito. Gostava de morar afastado, longe das ruas apinhadas de gente. Tinha nevado durante a noite. As carroças cheias de verdura não podiam passar. (O neto ouvia). O avô estava indo escondido da mãe. Era muito perigoso. E então o avô conseguiu atravessar a ponte. O rio estava congelado lá embaixo. Parecia que tinha adormecido e não queria correr para lugar nenhum.A subida para a casa do tio estava escorregadia. Mas o avô conseguiu chegar.
O tio ficou feliz. Ele tinha um forno grande de queimar o barro. Tinha um torno. Parecia mágica. O tio pegava um pedaço de barro e fazia um prato, uma moringa, um bule. Era como se fossem personagens. (O neto ouvia). O bule casava com a manteigueira. E o dia passou voando na casa desse tio lá no alto da colina. Quando o avô se lembrou de voltar, a noite já estava chegando. E o tio deu um presente para o avô levar para casa. Era um cavalo de barro. Ia dentro de uma caixa de papelão. O avô se sentia mais rico que um rei. Levava a caixa com todo cuidado. Não podia cair de jeito nenhum. (O neto ouvia).
De repente, embaixo da neve, uma coisa brilhando. Era uma moeda de ouro. O avô esquecia do presente, esquecia de tudo. Mas a neve estava dura. O avô tentava cavar e não conseguia. Então teve uma ideia tão boa que nem dava para acreditar: era só fazer xixi em cima da neve que cobria a moeda. O xixi era quente e derretia a neve. Aí o avô piscava o olho e ria na cara do neto. “É verdade, vô, essa história da moeda?”
Pode ser que sim, pode ser que não, nunca se sabe respondia o avô. Mas se naquela época eu tivesse uma moeda de ouro...
E voltava a contar histórias malucas, sem pé nem cabeça, de bichos fantásticos. A sua barriga tinha novamente engolido o sol.
Um dia tiveram que partir. Ia haver uma guerra. O avô tinha 14 anos. As guerras são tristes. Deviam ser proibidas em todas as línguas da Terra. Se o avô não tivesse vindo com sua mãe e seus irmãos, o neto não existiria. O neto ouvia assombrado e via o navio se afastando do cais, um navio cheio de gente, com o avô lá dentro. Tantas vezes o avô contou essa história, que o neto já sabia de que lado soprava o vento.
O avô gostou muito de chegar num país cheio de sol. Mas às vezes lembrava do tio que morava em cima da colina.
Depois o avô cresceu. Teve uma loja, uma mulher, quatro filhos. Aí os filhos cresceram. E o avô teve netos. Os netos estão crescendo.Assim é a vida.
(MURRAY, R. Kligerman In Memórias futuras: contos infanto- juvenis contemporâneos. Niterói, EDUFF, 1987, p 78-80)
Em cada um dos itens abaixo, foram transcritos dois períodos do texto e reescritos num único período, com emprego do pronome relativo. O item em que o período reescrito apresenta ERRO de regência no emprego do pronome relativo é:
 

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