Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje é uma aglomeração de “horrores”. [...] Não está terminado o vosso espanto. Outros “horrores” vos esperam. [...]
Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da Beleza. [...] A arte é independente deste preconceito. [...] É a realização da nossa integração no Cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dos sons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidade suprema com o Todo Universal. Por ela sentimos o Universo, que a ciência decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus fenômenos. [...]
Este supremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjetivismo. É uma resultante do extremado individualismo que vem vindo na vaga do tempo há quase dois séculos até se espraiar em nossa época, de que é feição avassaladora. [...]
Cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. Cada um é livre de criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda a regra, de toda a sanção. O cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. [...]
Este subjetivismo é tão livre que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objetivismo, em que desaparece a determinação psicológica. [...]
No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta, jaz aquela porção de tristeza, aquela nostalgia irremediável, que é o substrato do nosso lirismo. É verdade que há um esforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia se desforra na amargura do humorismo, que é uma expressão de desencantamento, um permanente sarcasmo contra o que é e não devia ser, quase uma arte de vencidos. [...]
Que a arte [...] renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.
ARANHA, Graça. A emoção estética na arte moderna (discurso de abertura da Semana de Arte Moderna). In: ANDRADE, Mário de. Mário de Andrade e a Semana de Arte Moderna. São Paulo: Faro Editorial, 2021, p. 15, com adaptações.
Com base nos aspectos linguísticos e estilísticos do texto, julgue o item a seguir.
Apesar de subjetivismo e objetivismo serem conceitos distintos e opostos, o autor opina que a liberdade permite a transformação do primeiro no segundo, de maneira que não pode ser prevista conforme normas científicas.