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1305838 Ano: 2014
Disciplina: Português
Banca: MS CONCURSOS
Orgão: CORE-PE
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A questão baseia no texto apresentado abaixo
Tragédia concretista
O poeta concretista acordou inspirado. Sonhara a noite toda com a namorada. E pensou: lábio, lábia. O lábio em que pensou era o da namorada, a lábia era a própria. Em todo o caso, na pior das hipóteses, já tinha um bom começo de poema. Todavia, cada vez mais obcecado pela lembrança daqueles lábios, achou que podia aproveitar a sua lábia e, provisoriamente desinteressado da poesia pura, resolveu telefonar à criatura amada, na esperança de maiores intimidades e vantagens. Até os poetas concretistas podem ser homens práticos. Como, porém, transmitir a mensagem amorosa em termos vulgares, de toda a gente, se era um poeta concretista e nisto justamente residia (segundo julgava) todo o seu prestígio aos olhos das moças? Tinha que fazer um poema. A moça chamava-se Ema, era fácil. Discou. Assim que ouviu, do outro lado da linha, o “alô” sonolento do objeto amado, foi logo disparando: - Ema. Amo. Amas? - Como? – surpreendeu-se a jovem. – Quem fala? - Falo. Falas. Falemos. A pequena, julgando-se vítima de um “trote”, ficou por conta e, como era muito bem-educada (essas meninas de hoje!), desligou violentamente, não antes de perpetrar, sem querer, um precioso “hai-kai” concretista: - Basta, besta! O poeta ficou fulminado. Não podia, não podia compreender. Sofreu, que também os concretistas sofrem; estava realmente apaixonado, que também os concretistas se apaixonam, quando são jovens – e todo poeta concretista é jovem. Não tinha lábia. Não teria os lábios. Por que não viajar para a Líbia? Desaparecer, sumir... Sentia-se profundamente desgraçado, inútil. Um triste. Um traste. O consolo possível era a poesia. Sentou-se e escreveu: “Bela. Bola. Bala.” O que, traduzido em vulgar, vem a dar nesta banalidade: “A minha bela, não me dá bola. Isto acaba em bala.” Não acabou, naturalmente. Tomou uma bebedeira e tratou de arranjar outra namorada, a quem dedicou um soneto parnasiano. Foi a conta. Casaram-se e são muito falazes... oh! Perdão: felizes.
MARTINS, Luís. Tragédia concretista. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 132-133.
Quanto ao narrador de Tragédia concretista, não podemos fazer qual(is) das seguintes afirmações?
A – Em lugar nenhum no texto ele mostrou-se influenciado pelo estilo de poema do poeta.
B – Ele creditou à mudança de estilo da poesia o fato de o poeta conquistar uma nova namorada e com ela se casar.
C – Em um certo momento do texto, ele faz questão de se isentar diante de uma opinião do poeta.
 

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