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Calorias e culpas
Tenho horror de engordar. Sempre fui um pouco vaidoso. Mas, entre um prato de talharim e silhueta, costumo optar pelo primeiro. Durante muito tempo, eu e minha barriga até tentamos ser felizes. Mas não resisto mais à maldade humana.Vou fazer regime.
O gordo, seja apenas rechonchudo ou tipo barril, é uma vítima do veneno constante destilado em cada encontro com amigos ou parentes. Todos se tornam fiscais do peso. Quantas vezes, no momento de uma garfada em alguma delícia suculenta, ouvi do meu companheiro de mesa:
− Isso engorda!
E daí se engorda? As pessoas ficam felizes com nossa expressão de culpa, que anula o prazer do quitute sedutor. Se tivessem a mesma paixão por vigiar assaltantes, o país seria um mar de rosas. Mas a conspiração é contra o gordo.
Vendedora de loja, então, é um terror. Basta pedir um jeans e dar o número. Ela faz um falso ar de dúvida:
− Nem sei se temos o tamanho.
Admira por instantes minha expressão de infelicidade e culpa. Depois, me atira uma calça ainda mais larga, alegremente.
Prestes a iniciar um regime, vejo-me na obrigação de ficar igualzinho a um modelo fotográfico. Só me consola saber que não sou tão gordo assim. Imagino que, para os pesadões, a vigilância é bem pior. E as mulheres? Além de magras, são obrigadas a parecer jovens até os 70 anos. Portanto, vou iniciar o regime. Mas sem muita esperança. Os fiscais do peso alheio andam de olho gordo. E hoje em dia, só aceitam mesmo a perfeição.
(Walcyr Carrasco. O golpe do aniversariante. 2007. Adaptado)
Segundo o texto, o autor revela que