Leia o texto a seguir para responder à questão.
A torre de Babel
Carlos Heitor Cony
O grande público ignora, mas está em discussão – aliás, continua em discussão – o acordo ortográfico entre Brasil, Portugal e demais países que falam e escrevem oportuguês, designados eruditamente como “lusófonos”. Uma velha questão que motivou diversos acordos – e nenhum deles foi realmente respeitado.
Tanto na academia brasileira como na congênere portuguesa, sempre houve comissões mais ou menos permanentes em busca da unificação ortográfica – que, a bem da verdade, é quase completa, com exceção de pequeno número de palavras sobre as quais não existe consenso. Exemplo: dificilmente o Brasil aceitará escrever “facto” em vez de “fato”, duas palavras que, em Portugal, têm sentidos diferentes.
Em linhas gerais, os especialistas lusitanos obedecem ao critério histórico das palavras: “Súbdito” em lugar de “súdito”, em respeito ao prefixo “sub”, que indica submissão. E por aí vai.
Problema maior será obter consenso com os povos africanos que falam português. Alguns deles não abrem mão das origens, que nascem dos diversos dialetos espalhados pelo imenso território da África. É o caso da letra “K”, muito usada em todos eles. Não vejo a possibilidade de adotarmos aqui no Brasil a grafia de “kiabo” no lugar de “quiabo”, ou “muleke” no lugar de “moleque”.
Pessoalmente, me abstenho dos debates lá na Academia. Não sou especialista e aproveito a erudição alheia. Considero que língua, linguagem, fonética e ortografia são como a famosa “La donna è mobile” *, cantada na ária de Verdi.
Não adianta regredir aos tempos anteriores à construção da Torre de Babel, quando, segundo o relato bíblico, os homens começaram a falar cada qual à sua maneira e a torre do consenso humano jamais chegaria ao céu.
Folha de S. Paulo, 03 de maio 2008, 1º caderno, página 2.
* La donna è mobile: canção da ária Rigoletto, de Verdi, cujo refrão traduz-se como “A mulher é móvel (volúvel)/Qual pluma ao vento/Muda de acento/E de pensamento.”
Leia os textos 1 e 2, a seguir, extraídos do documento oficial que regulamenta o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 16 de dezembro de 1990, relacionando-os com o texto “A torre de Babel”:
Texto 1
1º) O c, com valor de oclusiva velar, das seqüências interiores cc (segundo c com valor de sibilante.), cç e ct, e o p das sequências interiores pc (c com valor de sibilante.), pç e pt, ora se conservam, ora se eliminam.
Assim: (...)
• Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carateres, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção.
2º) Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta, quer geral, quer restritamente, ou então quando oscilam entre a prolação e o emudecimento: o b da seqüência bd, em súbdito; o b da sequência bt, em subtil e seus derivados; o g da sequência gd, em amígdala, (...); o m da seqüência mn, em amnistia, indemne, omnímodo, omnisciente, etc.; o t da sequência tm, em aritmética e aritmético.
Texto 2
3º) As letras k, w e y usam-se nos seguintes casos especiais:
a.) Em antropónimos/antropônimos originários de outras línguas e seus derivados: Franklin, frankliniano; Kant, kantiano; Darwin, darwinismo: Wagner, wagneriano, Byron, byroniano; Taylor, taylorista;
b.) Em topónimos/topônimos originários de outras línguas e seus derivados: Kwanza; Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano.
Relacionando a normatização apresentada no documento ao conteúdo do texto “A torre de Babel”, assinale a alternativa correta:
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Professor do Ensino Fundamental - Português
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