Ciência e teorias da conspiração em tempos de pandemia Desconcertado por uma crise sanitária sem precedentes, o ano de 2020 renovou o sentido de imponderável. Até há pouco, não se imaginava que o mundo seria tragado por uma espiral de incertezas que colocaria em xeque muitas de nossas convicções, necessidades e vontades. Como em outros momentos marcados por perturbação e perplexidade, buscamos explicações e orientações que nos guiem por essase águas turbulentas.
Enquanto seres humanos, todos temos necessidades que vão além das exigências fisiológicas, como a de nos alimentar ou descansar, por exemplo. Também temos o desejo de sermos aceitos por nossos pares e fazer parte de uma comunidade, da mesma maneira que ansiamos por segurança — não somente em uma conotação pragmática de estarmos protegidos contra malefícios que nos podem ser causados, mas no seu sentido mais abrangente, traduzido por solidez no presente e confiança no futuro.
Os seres humanos se inclinam a uma busca por certezas e explicações sobre o mundo e seus fenômenos complexos e imprevisíveis. Se há algo em comum entre mais diversos sistemas de crenças, é a tentativa de responder qual o sentido da vida e como devemos interpretar e lidar com os inevitáveis infortúnios que rodeiam a nossa breve e frágil existência. À humanidade sempre tendeu a desejar minimamente que as coisas estejam sob controle e, quando escapam a ele, é comum associar a mudança de curso a forças e entidades sobre-humanas, manifestações espirituais ou à ação de deuses. Isso é legitimo e autêntico, uma vez que - e a modernidade possibilitou essa separação — a dimensão religiosa pode ser encarada como uma das formas possíveis de conhecimento que desenvolvemos e às quais temos acesso enquanto participantes de uma cultura.
Até há alguns séculos, sociedades e comunidades tradicionais do chamado Ocidente definiam e aceitavam, predominantemente, a origem das doenças e das epidemias a partir de explicações religiosas ou míticas. O advento da Revolução Científica e do Muminismo, nos séculos XVII & XVII, respectivamente, foram dois pontos de inflexão nessa longa relação entre o homem é o mundo que o cerca. Dai por diante, a razão se tornou a ferramenta por excelência para decifrar a realidade. Com tala instrumento em mãos, a ciência desenvolveu um método original cujos resultados, ofertados por sucessivas ondas de descobertas e aprimoramentos técnicos, são surpreendentes.
Em pouco tempo, o racionalismo deixou de ser um privilégio de circulos intelectuais restritos para ocupar parte do sistema educacional, que se universalizou na esteira da afirmação dos Estados nacionais. À antiga crença de que forças externas controlavam tudo o que ocorria no cotidiano dos homens perdeu o vigor de outrora é ganhou um concorrente de peso. Não que o pensamento religioso precisasse ser eliminado, muito pelo contrário, mas agora o discurso científico também dava as cartas na hora de explicar os mais variados fenômenos naturais. Um dos reflexos dessa crescente racionalização foi a tendência a delegar à esfera política parte relevante da responsabilidade na área da saúde, com políticas públicas e agências reguladoras. Por motivos óbvios, issoc não impede que, diante de uma calamidade, muitos possam, de forma individual e livre, se apoiar nas explicações religiosas que lhes convenham.
A ciência trabalha com probabilidades e aponta caminhos sobre “verdades provisórias”. À entrega de certezas perenes seria negar seu próprio método, pautado no ceticismo, no falibilismo e na verificação empírica. Ao invés de oráculos, mitos e tradições, as suas afirmações são estruturadas a partir de hipóteses e de teorias que buscam se sustentar na experiência e na observação dos fatos, mas todas elas refutáveis em caso de fortes evidências que as contradigam. Eisb o trunfo da ciência: ser um sistema aberto de pensamento e de debate, no qual cada conclusão deve ser devidamente avalizada por especialistas daquela área. Para não trair seus próprios princípios, ela deve evitar ao máximo os argumentos de autoridade, daí sua mobilidade e atualização constantes.
Por outro lado, a ciência é fruto do pensar e agir humanos. O seu desenvolvimento está sujeito a interferências políticas e possui, evidentemente, historicidade, refletindo seu contexto de produção. Ela também avança a partir de interesses e pode ser instrumentalizada para os mais diversos fins — incluindo a dominação e a destruição, sendo exemplos eloquentes o colonialismo e as guerras mundiais. Por isso, seria errôneo afirmar que o fazer científico é neutro, mesmo do ponto de vista das escolhas e de certas inclinações teóricas. Seja como for, o conhecimento cientifico estará sempre aberto à crítica e à contestação, desde que estasd estejam calcadas, por sua vez, em afirmações submetidas ao mesmo e rigoroso método.
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(Leandro Gavião é Daniel Martinez de Oliveira, Le Monde Diplomatigue Brasil, 3 de setembro de 2020)
Assinale a alternativa em que, no texto, a palavra exerça papel catafórico.