Ser dono da bola dava a Ramon certos privilégios.
Um deles era o de determinar que o jogo só começasse após ele contar uma história de seu livro de autores latinos. Essa condição, muito antes de soar antipática, a Roberto sempre serviu de estímulo à sua curiosidade por aprender coisas novas. Ele havia sido acolhido pela família de Ramon quando, junto aos irmãos e mãe, chegou fugido do Brasil, no final dos anos 1960. A viagem levara horas até a cidade argentina de San António, na província de Misiones, divisa com o estado do Paraná, onde Roberto nascera e do qual partiram no meio da noite. “Conheci toda a América do Sul com aquele livro”, conta Roberto, que na época tinha menos de dez anos. Tudo ia bem até o momento em que ele foi convidado pelo dono da bola para falar alguma coisa sobre Monteiro Lobato, autor brasileiro que escrevera a história que ele escolhera para ler naquele dia. “Foi a primeira vergonha que eu passei. Eu não podia falar nada sobre Monteiro Lobato, nem sabia quem era”. Por outro lado, a partir daquele episódio, Roberto passou a ler tudo o que lhe passasse pela frente.
Quando voltaram para o Brasil, depois de dois anos e oito meses, foram morar num lugarejo no interior do Paraná, em Pranchita. A vontade de ler o acompanhava, mas os parcos recursos da família não permitiam que comprasse livros. Ele e um amigo, Romário, costumavam passar horas frente vitrine de uma livraria no centrinho da cidade, apreciando as capas de gibis e livros de literatura. Receosos de que os mandassem sair dali, poderiam estar sujando o vidro que era cuidadosamente esfregado por uma senhorinha, eles mantinham as mãos para trás. Até que certa manhã o dono da livraria, um italiano magro e alto, saiu e perguntou aos meninos o que eles queriam. A primeira reação foi sair correndo. Três dias depois, eles voltaram, e o proprietário do estabelecimento refez a pergunta. Então os garotos comentaram a respeito de um gibi que há seis meses estivera exposto na vitrine. Gentilmente foram convidados a entrar para ler o que quisessem – hábito que mantiveram ao longo de quatro anos.
“Ele nunca nos pediu nada em troca”, rememora Roberto. Antes abrissem o primeiro gibi, no entanto, receberam instruções minuciosas de como folhear sem deixar dobras ou marcas nas páginas; tudo deveria ficar como novo, pronto para a venda.
Hoje Roberto Sampaio tem pouco mais de 56 anos, é conselheiro tutelar em Taquara, no interior do Rio Grande do Sul, e pintor de parede por ofício, como gosta de dizer. Aos 32 anos começou a ficar decepcionado consigo mesmo por ainda não ter conseguido cumprir o sonho que acalentava desde os 12 anos de idade: montar uma biblioteca aberta ao público, quando tivesse um acervo de quatro mil livros. Depois de anos guardando em todas as peças da casa os títulos que conseguiu por meio de doações, no dia 28 de setembro de 1988 ele pendurou
na fachada de sua casa: Biblioteca Amigos do Livro. Eram 10 horas da noite, e Roberto estava realizado.
Adaptado de: O homem que não conhecia Machado de Assis e outras histórias. Jornal da Universidade. Caderno JU. n. 49, ed. 203, jul. 2017.
A substituição de dono por dona acarretaria a modificação, para fins de concordância, de quantas outras palavras no seguimento.