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2437294 Ano: 2012
Disciplina: Português
Banca: IF-SP
Orgão: IF-SP
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Criador de hits
Autor sui generis, Luís Fernando Veríssimo vende milhares de livros, acredita na chamada de “literatura de entretenimento” e escreve por encomenda.
Por Luís Rebinski
“Formei-me em letras e na bebida busco esquecer.” Assim, com esse achado existencialista de um homem frustrado com sua profissão, começa Os espiões, último livro do escritor gaúcho Luís Fernando Verissimo. Se o começo é capaz de empolgar até o mais distraído dos leitores, a sequência não deixa por menos, fazendo da estreia de Verissimo no romance policial um evento imperdível para quem aprecia livros bem-escritos e sem o fardo narrativo que costuma acompanhar literatices das mais variadas.
Narrado por um editor turrão e alcoólatra de fim de semana - “Só bebo nos fins de semana. De segunda a sexta, trabalho em uma editora” -, Os espiões traz a leveza do texto tão conhecido do cronista Verissimo, aliada a uma trama bem amarrada, envolta em um cipoal de referências culturais que dão sabor especial à narrativa.
O humor, outra marca do autor, também se faz presente, tornando o livro uma sátira séria dos romances policiais. Séria porque Verissimo é confessadamente fã do gênero que consagrou John le Carré, e sátira porque a investigação que norteia a obra é feita não por espiões altamente treinados, mas por uma turma de bebuns pseudointelectuais que vão desbravar o interior do Rio Grande do Sul. Ainda assim, a trama não deve nada a Graham Greene ou a Raymond Chandler, dois mestres do gênero.
“A ideia era fazer um elenco de gente não muito séria, frustrada, com um gosto comum também não muito sério pela literatura, que se vê atraída por um labirinto que tem um enigma literário em seu centro, e acaba os deixando mais frustrados ainda. Se o livro tem uma mensagem, é que a literatura não substitui a vida”, explica Verissimo.
Os espiões, assim como várias de suas outras publicações, tem como mote a própria literatura. Entre os espiões do título, que vão para o interior gaúcho tentar evitar o possível suicídio de uma desconhecida e talentosa escritora, há o editor de livros que narra a trama, um poeta que se autointitula “poeta menor” – por conta de sua baixa estatura – e um professor cabotino que cita obras e autores que nunca leu. “De um jeito ou de outro, todos os meus livros são sobre literatura, sobre a narrativa e a relação do narrador com o leitor e os personagens, a velha questão flaubertiana da posição do autor em seu próprio texto.”
Autor de outros bons romances com pegada detetivesca, como O jardim do diabo e Borges e os orangotangos eternos, Verissimo é escritor brasileiro sui generis, não só porque vende milhares de livros em um país onde a maioria dos escritores não consegue sair da primeira edição, mas principalmente porque é dos poucos a acreditar que a chamada “literatura de entretenimento” pode ser sinônimo de boa prosa. “Acho, como o narrador, que boa literatura se faz em qualquer gênero. De toda maneira, penso que os únicos rótulos que deveriam ser dados a obras literárias seriam ‘boa’, ‘ruim’ ou ‘mais ou menos’’’, sentencia.
Mesmo sendo um escritor de inegável talento e laureado com todos os tipos de comendas literárias, há, ainda, quem torça o nariz para a literatura fluida por ele praticada. Se o gênero policial por si só já é objeto da desconfiança da crítica, que o vê como um gênero menor, o que dizer de um autor que só escreve por encomenda (uma verdadeira heresia entre nossos escritores), é humorista e não dispensa um crime em suas tramas?
“Os livros de Jô Soares, por exemplo, foram recebidos como bom entretenimento, com tramas engenhosas e divertidas, e acho que não pretendiam ser outra coisa. E, neste sentido, foram bem aceitos inclusive pela crítica. Se é que se pode falar assim em ‘crítica’ como entidade no Brasil”, cutuca o escritor gaúcho, citando outro humorista que enveredou pela literatura policial.
Em cinco décadas de literatura, Os espiões é a primeira obra que não lhe foi encomendada. Todas as outras que escreveu partiram de sugestões de editores. No entanto, ele não é o único autor brasileiro a escrever por encomenda. Nomes de peso como João Ubaldo Ribeiro e Moacyr Scliar também o fazem. Mas Verissimo é, com certeza, o mais assíduo nesse tipo de trabalho, que, para ele, é uma forma de estímulo – e não castração – à criação. “Há uma conotação de literatura de aluguel quando o tema é dado pela editora. Mas a conotação é falsa. Não importa muito a gênese de um livro, importa o que se faz com ela. A ideia dada funciona como um desafio, estimula em vez de limitar.”
O BEST SELLER
Com mais de 50 livros publicados, Verissimo já vendeu cinco milhões de exemplares, tornandose um verdadeiro fenômeno em um país de poucos leitores. Em grande parte, isso se deve ao seu poder de produção, ainda que “o ficcionista só trabalhe quando o cronista deixa de trabalhar”, segundo ele próprio, um dos mais prolíficos do país. Um dos poucos que lhe fazem frente é seu conterrâneo Moacyr Scliar, com mais de 60 livros e considerado por Verissimo “o maior escritor vivo do país”.
Em 1997, Luís Fernando Verissimo mudou de editora, trocando a gaúcha L&PM pela Objetiva, na qual está até hoje. Em 11 anos na atual casa editorial, publicou 21 títulos, o que dá uma média de quase dois por ano. Só As mentiras que os homens contam (2000) vendeu 500 mil exemplares. Comédias para se ler na escola (2001), outro fenômeno, teve 950 mil livros vendidos.
Muitos desses leitores foram atraídos pelo humor refinado que o autor destila em jornais e revistas há décadas. Sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, é publicada há mais de 20 anos, desde 1989. Foi de sua produção humorística que surgiram dois de seus personagens mais celebrados: Ed Mort e a Velhinha de Taubaté. O detetive Ed Mort nasceu de uma crônica chamada Armadilha e fez tanto sucesso que ganhou a tela grande, sendo interpretado por Paulo Betti. Já a Velhinha de Taubaté, tal como uma personagem real, ganhou as manchetes dos jornais quando Verissimo resolveu dar cabo de sua existência.
Inversamente proporcional ao seu ritmo de trabalho é a sua eloquência para entrevistas. Tímido e avesso a badalações literárias, o escritor gaúcho é conhecido por dificultar a vida de seus entrevistadores ao responder com monossílabos perguntas pretensamente inteligentes e bem elaboradas. Ao ser abordado para falar de seu novo livro, via e-mail, à Revista da Cultura, Verissimo, que estava na Patagônia, não fugiu à regra em perguntas sobre sua participação na Copa do Mundo da África do Sul: “Estarei lá, torcendo pelo Dunga”. E sobre sua opção por permanecer em Porto Alegre mesmo com tantos compromissos profissionais no eixo Rio-São Paulo: “É uma escolha sentimental”.
Laconismo que, nesse caso, não faz muita diferença. O homem tem história e, sobre ele, que nasceu sob a égide de um dos mais respeitados pedigrees literários do país, não falta assunto. Multifacetado, o escritor toca saxofone no quinteto Jazz Seis, ilustra suas próprias colunas de jornal e é um assíduo comentarista de copas do mundo. Desde 1986, no México, o colorado Verissimo é escalado para dar seus pitacos sobre o torneio mais popular do planeta. Aos 73 anos e com o currículo que tem, o que mais lhe faltaria? “Tocar com minha banda de jazz em Nova York. Já chegamos até Natal”, responde.
REBINSKI, Luís. O criador de hits. Disponível em: <http:
//www.revistadacultura.com.br:8090/revista/rc34/index2.asp?page=materia3>. Publicada em edição maio de 2010. Acesso em 03-08-2012.
Considere o trecho do texto anterior:
Mesmo sendo um escritor de inegável talento e laureado com todos os tipos de comendas literárias, há, ainda, quem torça o nariz para a literatura fluida por ele praticada. Se o gênero policial por si só já é objeto da desconfiança da crítica, que o vê como um gênero menor, o que dizer de um autor que só escreve por encomenda (uma verdadeira heresia entre nossos escritores), é humorista e não dispensa um crime em suas tramas?
Há mecanismos linguísticos que buscam garantir a coesão textual. O pronome oblíquo presente no excerto anterior exerce:
 

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