Leia o texto a seguir:
A inteligência artificial
desafia a evolução
Em trabalho publicado na revista “Nature”, no apagar das luzes de 2020, cientistas japoneses e europeus combinaram inteligência artificial e registro de fósseis para desafiar uma das teorias mais aceitas da ciência: a evolução das espécies. Vale lembrar que esse conceito, o darwinismo, postula que a vida se modifica em resposta a mudanças ambientais e/ou vantagens evolutivas.
O surgimento da vida visível na Terra, há cerca de 540 milhões de anos, favoreceu a preservação fóssil de diferentes espécies. Foi o estudo desse registro que permitiu a identificação de cinco grandes extinções, bem como de inúmeros períodos de evolução acelerada das espécies, a chamada macroevolução. Curiosamente, a macroevolução parecia decorrer de eventos de extinção em massa e da desimpedida evolução das espécies sobreviventes.
Até o ano passado, confirmações dessa teoria ou hipóteses que a desafiavam se baseavam em estudos qualitativos, sujeitos a críticas, em parte por causa do caráter espacial e temporalmente irregular do registro de fósseis. Os resultados do novo estudo sugerem, no entanto, que não há relação temporal entre a diversificação da vida e eventos catastróficos anteriores. Mais do que isso: a macroevolução parece ser tão destrutiva quanto as extinções em massa.
As ferramentas de inteligência artificial empregadas no estudo permitiram decifrar os padrões escondidos em uma base de dados paleontológicos que reúne pouco mais de 1,2 milhão de registros, referentes a mais de 170 mil espécies. Foi possível visualizar pela primeira vez nos últimos 540 milhões de anos os períodos de explosão da vida, de extinção em massa e de intenso surgimento de novas espécies desencadeado por crises biológicas.
Traduzidos em diagramas, os resultados do novo estudo permitem identificar não apenas as cinco extinções em massa, mas também outros sete eventos de extinção de menor magnitude e quinze eventos de altíssimas taxas de aparecimento de novas espécies (a macroevolução). Além desses, dois eventos em que extinção e diversificação de espécies caminharam juntas são mostrados pela primeira vez com clareza.
Os padrões revelam um equilíbrio entre períodos de extinção em massa e de diversificação incrementada de espécies, com um contínuo de eventos separando esses dois extremos. Surpreendentemente, os resultados do trabalho indicam que os eventos de evolução acelerada da vida (aqueles com taxas incrementadas de mudanças adaptativas ou surgimento de novas espécies) não apresentam associação temporal com a maioria das extinções em massa que os precederam.
Muito pelo contrário, os padrões identificados indicam que a macroevolução pode ter efeitos destrutivos similares aos das grandes extinções em massa. Ao contrário do que se observa na dobradinha macroevolução/extinção, o papel da diversificação da vida na destruição de espécies seria promover maior competição, acarretando o desaparecimento de espécies menos adaptadas.
O quão disruptivo de fato será o novo estudo ainda descobriremos, pois essas conclusões com certeza serão alvo de escrutínio por parte de cientistas. O importante é que ele une duas tendências que vieram para ficar e que talvez fomentem avanços científicos sem precedência: de um lado, os recursos cognitivos ilimitados da inteligência artificial; de outro, o contraditório nos forçando a revisitar teorias já consolidadas.
(Adriana Alves. https://cienciafundamental.blogfolha.uol.com.br/2021/05/16/a-inteligencia-artificial-desafia-a-evolucao/)
Surpreendentemente, os resultados do trabalho indicam que os eventos de evolução acelerada da vida (aqueles com taxas incrementadas de mudanças adaptativas ou surgimento de novas espécies) não apresentam associação temporal com a maioria das extinções em massa que os precederam. O trecho entre parênteses, sublinhado no período acima, em relação ao termo anterior, estabelece um valor de