Atenção: A questão baseia-se no texto apresentado abaixo.
Todos os grandes rios do mundo arrastam-se até um derradeiro suspiro no mar, num casual encontro de águas doces com ondas salgadas. Apenas três deles transfiguram-se radicalmente antes de encerrar suas longas viagens. Num trecho selvagem da costa entre o Piauí e o Maranhão, o rio Parnaíba, o segundo maior do Nordeste, forma o único delta em mar aberto de toda a América. Quando se aproxima do Atlântico, o Parnaíba desabrocha como uma flor viçosa e deixa de ser apenas um rio. Seu leito multiplica-se num universo de ramais aquáticos ilustrado por 83 ilhas, milhares de igarapés labirínticos, manguezais, dunas imensas, praias desertas, fauna abundante. Vista do alto, tal composição lembra um triângulo invertido, o mesmo desenho da letra delta do alfabeto grego. Apenas o rio Nilo, no Egito, e o Mekong, no Vietnã, formam deltas similares. São rios maiores, bem mais extensos e caudalosos. Mas nenhum deles apresenta uma natureza tão intensa e múltipla quanto o grande encontro do Parnaíba com o mar.
Num lugar onde a História começou a ser escrita com um naufrágio − o do português Nicolau de Resende, primeiro forasteiro a aparecer por ali, que acabou sendo salvo pelos índios tabajaras −, a arte de navegar sempre significou a sobrevivência. O delta é um labirinto vegetal. A abertura de estradas ligando cidades e povoados trouxe atualmente uma alternativa mais rápida para os moradores da região do que os antigos gaiolas, barcos que eram uma verdadeira instituição do delta. Os gaiolas estão a cada dia mais vazios, levando quase sempre apenas turistas.
A exemplo das embarcações de linha, a cidade de Parnaíba, porta de entrada do delta, lembra o passado, tempo do apogeu da carnaúba, a palmeira milagrosa de tantas utilidades. Festas memoráveis saudavam o tempo das colheitas do fruto que por algumas décadas sustentou a economia do Piauí. Mas o advento do petróleo e de seus subprodutos esmagou a importância da carnaúba.
Ao longo de todo o curso do rio, e também no delta, ribeirinhos e fazendeiros vêm queimando e derrubando árvores das margens para abrir pastagens para o gado e formar roçados. Interferem até em áreas de mangue, queimando madeira para fazer carvão. Sem nenhum tipo de planta − como a aninga, que serve para fixar as margens −, barrancos desmoronam e o assoreamento toma conta do rio. O delta é um mundo onde fauna e flora sempre cultivaram uma delicada relação de interdependência. Assim, no ambiente a cada dia mais ameaçado, os animais buscam refúgio onde o homem interfere menos, simplesmente deixando as árvores em pé ou não transformando banhados em plantações de arroz.
Há uma preocupante diminuição da oferta de atividades econômicas no delta. A busca de caranguejos é insalubre, a carnaúba já não movimenta fortunas, a lida com o gado nas fazendas e o turismo são ainda privilégio de uma minoria.
(Adaptado de Ronaldo Ribeiro, Terra, setembro 1999, p. 44-53)
O autor do texto
I. deixa evidente sua admiração diante da beleza da área banhada pelo rio Parnaíba e sua histórica importância econômica.
II. censura de forma indireta a ausência de atividades que possam desenvolver o turismo na região do delta.
III. registra a fragilidade da natureza diante do avanço do progresso e da ocupação humana, sem o necessário controle.
IV. defende a manutenção dos barcos de transporte da região, os antigos gaiolas, para garantir empregos aos moradores.
Está correto o que se afirma SOMENTE em