Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: ASSEGE
Orgão: Pref. Aramari-BA
CATAR FEIJÃO
João Cabral de Melo Neto
“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco”
Sobre o texto é possível afirmar:
I- É um meta-poema, tendo como objeto a construção do poema, toma como referente um ato do cotidiano em que também o escolher, o combinar são necessários.
II- Catar feijão é, como catar palavras, recolher, retirar o que não é feijão ou não é feijão bom,o que não é palavra adequada ou não é palavra boa.
III- A imagem é muito significativa construção do poema, ainda mais quando se observa que a “água-papel” se contrasta com a “água – alguidar” não apenas quanto à imagem produzida, mas também porque a complexidade do verbo boiar é muito maior pelo efeito que o contexto lhe confere.
IV -Em relação ao ritmo, o primeiro dos recursos a chamar a atenção é a predominância do rigor com que as palavras oxítonas e paroxítonas se sucedem, determinadas ou interligadas por monossílabos, numa combinação de variabilidade harmônica
V - Reduzido a dezesseis versos, o poema busca na potencialidade significativa de inter-relação de seus elementos fonéticos, semânticos e sintáticos a projeção de sua significação que é bastante densa.
São verdadeiras: