A importância da Linguagem Simples no setor público
Falar sobre Linguagem Simples é importante em todo e qualquer contexto. Quando falamos do Brasil,
esse problema é ainda mais urgente. O Brasil tem dois grandes desafios: o analfabetismo e a
desigualdade. Segundo estudo da ONG Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro de 2018, 3 em
cada 10 brasileiros e brasileiras entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Ou seja, cerca de 30%
da população brasileira economicamente ativa não consegue compreender textos simples.
A pessoa que é analfabeta funcional pode ter dificuldades de entender desde um e-mail profissional até
as regras para conseguir um benefício social. Esse problema educacional tem um enorme impacto na
sociedade como um todo. Se a pessoa não compreende um texto, não consegue usar aquela informação
e acaba perdendo oportunidades, seja de conseguir um emprego, de acessar um benefício social ou de
acessar qualquer outro serviço público.
Ainda segundo o estudo mencionado, somente 37% da população brasileira têm níveis de alfabetismo
intermediário ou proficiente. Essas pessoas têm mais facilidade para reconhecer o sentido de figuras de
linguagem e sinais de pontuação, além de elaborar e compreender textos mais complexos.
Esse cenário de baixos índices de letramento se torna mais complicado quando pensamos no tipo de
linguagem que o governo usa. O Estado Brasileiro foi formado, principalmente, por acadêmicos,
advogados e pessoas relacionadas ao contexto jurídico, que tiveram um papel muito importante na
construção das instituições e órgãos públicos com que nos relacionamos até hoje.
Assim, o funcionamento do Estado, as leis e as regras foram pensados a partir do Direito e, claro, de
sua linguagem. Essa é uma das razões pelas quais os termos e as palavras do jargão jurídico se
tornaram o padrão da administração pública, apesar de serem difíceis para a maioria das pessoas
entenderem.
Mas é importante lembrar que a Constituição de 1988 trouxe a visão de que o governo tem que trabalhar
para todos e todas. A Constituição criou a ideia de políticas públicas universais, indicando a necessidade
de se repensar, construir e comunicar os serviços públicos de uma forma que alcancem todas as
pessoas.
Quando o Estado usa uma linguagem complexa, cheia de siglas e palavras que a maioria da população
não conhece, acaba contribuindo para afastar a população do governo e dificultar o acesso a serviços
e direitos.
Muitas pessoas nem chegam a conhecer os serviços oferecidos, porque eles são divulgados em uma
linguagem que não faz sentido para elas. Quando uma pessoa quer saber até quando deve fazer o
pagamento do IPTU – Imposto Predial Territorial Urbano –, ela se depara com a seguinte frase: “O
contribuinte poderá impugnar a exigência fiscal no prazo de 90 dias”. Quando o empreendedor ou
empreendedora participa de uma licitação e questiona o resultado, a resposta é: “O pregão eletrônico
promovido para aquisição de kits para diagnóstico de arbovirose, para no mérito negar-lhes provimento,
tendo em vista que a condução do certame manteve conformidade com os princípios basilares que
regem a Administração Pública”.
A população deixa então de acessar serviços públicos por achar que é algo difícil, demorado e custoso.
Quando consegue acessar, a comunicação com o governo é cheia de obstáculos, tanto pela linguagem
quanto pelos procedimentos. O reflexo desses problemas custa muito ao próprio governo, que gasta
mais tempo e recursos para prestar os serviços.
Da mesma forma, empresas também encontram dificuldade para entender as regras que orientam o
funcionamento do seu negócio, já que essas regras são escritas nessa mesma linguagem. Acabam
precisando de auxílio, muitas vezes tendo que pagar uma pessoa que as ajude a entender melhor os
processos e conseguir o que precisam. Essa necessidade de auxílio torna o processo mais demorado
e provoca efeitos negativos na economia.
Por isso é tão importante garantir que tudo o que o governo faz, oferece e exige da população esteja
em uma Linguagem Simples. Para garantir que a comunicação entre a administração pública e os
cidadãos e cidadãs funcione, facilitando a vida de todas as pessoas.
Disponível em:
https://repositorio.enap.gov.br/bitstream/1/6181/1/Apostila%20do%20curso%20Linguagem%20Simples%20no%20Setor%20Pu% CC%81blico.pdf. Acesso em: 18 fevereiro de 2025 (adaptado)
A frase em que o pronome relativo “cujo” está adequadamente empregado, atendendo aos ditames da norma-padrão formal escrita é: