Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 1 a 10.
Nesta Páscoa, celebre a droga leve que a natureza pôs no cacau
Ovos de Páscoa guardam muito mais camadas do
que as de chocolate aderidas a uma forma. Quem come o
doce, neste domingo de alegria ressuscitada, nem imagina
quanta história e quanta química cabe dentro desse signo
5 ancestral de fertilidade gourmetizado para o paladar
contemporâneo.
Ovos de Páscoa já existiam na Europa bem antes de
ali chegar o chocolate. Ovos de galinha eram presenteados
para encerrar o jejum da Quaresma, ou pintados com a cor do
10 sangue de Cristo para lembrar sua paixão (sofrimento).
Como receptáculos de vida nova, os ovos
simbolizam a ressurreição. Ou então, uma vez drenados de
conteúdo e decorados, o sepulcro vazio do Messias renascido.
A simbologia é pródiga, renovada a cada geração que
15 comemora a festa em família.
A incorporação do cacau constitui ainda uma marca
daquele que foi talvez o maior encontro de civilizações da
história, entre Velho e Novo Mundo. (Sim, foi também, e
principalmente, um choque de civilizações, com proporções
20 genocidas sob o tacão colonizador, mas o dia hoje não é para
verdades amargas.)
Amargo, de toda forma, era o sabor da bebida
preparada com o pó das drágeas da árvore Theobroma cacao
por povos originários do México e outras partes da América.
25 Na Europa, acabou misturado com açúcar e leite, alquimia
que o transmutou na delícia do chocolate, como bebida ou
sólido.
O primeiro nome científico da planta, que em latim
quer dizer algo como alimento dos deuses ou manjar divino,
30 poderia sugerir algum elo com a religião cristã e a Páscoa, só
que não. É apenas uma celebração de seu sabor celestial.
Do mesmo gênero é o cupuaçu (Theobroma
grandiflorum). Ambas as iguarias cabem bem na classe dos
aptônimos, como diria o confrade Claudio Angelo, na qual o
35 nome da coisa ou da pessoa combina à perfeição com seu
traço mais saliente – como Marília Marreco, secretária de
Meio Ambiente e Proteção Animal do DF.
Do nome feliz se batizou o principal alcaloide do
cacau, a teobromina. Trata-se de uma xantina, estimulante
40 próximo da cafeína. Embora com efeito menos pronunciado
sobre o cérebro que o café, persiste a lenda de que o
chocolate pode também estimular a cognição.
Já entre os povos originários da América se
atribuíam ao cacau vários benefícios para a saúde, até mesmo
45 afrodisíacos (outra associação com fertilidade e reprodução,
mas que não combina muito com a Páscoa em família). Certo
é que chocolate baixa a pressão sanguínea e acelera os
batimentos cardíacos.
Mais duvidosa é a crença de que chocolate cause
50 dependência, ou pelo menos que o responsável por tornar as
pessoas chocólatras seja a teobromina, prima da cafeína. O
alcaloide típico do cacau tem mais dificuldade que o do café
para ultrapassar a barreira hematoencefálica e chegar ao
cérebro, sugerindo que a culpa recaia mais sobre o açúcar e a
55 gordura das barrinhas viciantes.
Embora sem propriedade psicoativa destacada,
ingere-se o cacau – amargo, preparado só com água,
eventualmente com especiarias – como sacramento em
cerimônias de povos indígenas do México, por exemplo. É
60 considerado uma planta sagrada, como os potentes tabaco
(nicotina) e peiote (cacto com o psicodélico mescalina).
Melhor parar por aqui, pois a conversa que
começou com ovos de Páscoa já caminha para soar
pecaminosa a ouvidos cristãos. Celebrem-na com os seus e
65 com chocolate, ou qualquer outro alimento. Divino, de
verdade, é poder sentar-se à mesa e compartilhar as dádivas
da natureza.
(Marcelo Leite. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2023/04/nesta-pascoa-celebre-a-droga-leve-que-a-natureza-pos-no-cacau.shtml.)
É considerado uma planta sagrada, como os potentes tabaco (nicotina) e peiote (cacto com o psicodélico mescalina). (L.59-61)
A palavra “potentes” no período acima se refere a