A casa
José Paulo Paes
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de
boas-festas com corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos
fúnebres e programas de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances
policiais até o fim dos tempos.
No quarto, uma mãe que está sempre
parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra
cuidadosamente o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro
todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia
histórias do outro mundo.
No quintal, um preto velho que morreu na
Guerra do Paraguai rachando lenha.
E no telhado um menino medroso que espia
todos eles; só que está vivo: trouxe-o até
ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a
casa, vendam-na depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também
morto.
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de Odes
mínimas. São Paulo, Cia. das Letras, 1992.
A ordem para vender a casa aparece indicada no início - “Vendam logo esta casa” - e no final do poema – “Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa”. O uso repetido deste enunciado se justifica pelo fato de o poeta