Magna Concursos
3270615 Ano: 2024
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Itaara-RS
Provas:
Depois dos 80 anos dos pais

Por Fabrício Carpinejar

Depois que os pais completam oitenta anos, não se deve mais brigar com eles. Não se

deve mais querer mudá-los ou ter razão. Eles são daquele jeito, entenda e respeite.

Tomei essa decisão definitiva. Não discuto mais com os meus pais. Não importa o que

aconteça, não importa se concordo ou discordo deles, não importa se passam pano para um

irmão que errou feio, não importa se me posiciono contra a sua orientação política ou sua opinião

estapafúrdia, não importa se preciso tolerar disparates do quanto o passado era melhor.

Eu me calo na mais funda paciência. Não me pre_ipito, não permito que a ansiedade vire

falta de tato, não aceito que a pressa desemboque na grosseria, não facilito ressentimentos.

Eu transformei o meu silêncio em cuidado. Apenas observo e agradeço a bênção.

Minha mãe tem 84 anos. Meu pai tem 85 anos. Nenhum desentendimento será maior do

que o meu amor por eles. O amor prevalece e reina pela paz.

Tudo com que eu poderia me indispor, tudo o que eu poderia apontar, tudo de que eu

poderia reclamar: já fiz antes. Minha carência da infância acabou, minha revolta da adolescência

findou, sou adulto para não ser mais levado pela mão nervosa da passionalidade.

Agora é o momento da cristalização de nossos laços, a colheita daquilo que foi plantado,

a reverência aos dois pelos exemplos oferecidos ao longo de riquíssima existência.

Assim como os pais se aposentam do serviço, também merecem a aposentadoria de

nossas críticas, de nossas restrições, de nossos senões.

Deixo que errem, deixo que bradem, deixo que transpareçam insatisfações, deixo que

xinguem as minhas limitações e meus defeitos. Eles têm o direito de ficar de mal comigo, eu não

tenho mais esse privilégio.

Eu me farei de louco quando eles se mostrarem estreme_idos, não aprofundarei o mal-

estar, esquecerei possíveis tensões, seguirei adiante, trocarei de assunto, confiarei a eles a

minha risada mais honesta de quem acolhe e reparte as imperfeições.

O que me cabe é me manter próximo, atento e acessível a qualquer necessidade. Ninguém

escuta pedido de socorro permanecendo longe.

Darei presentes, pagarei almoços e jantares, surgirei imediatamente sempre que for

chamado. Não se brinca com o tempo. Não se debocha do destino. Todo dia é uma eternidade

para quem ultrapassou os oitenta anos.

O que não desejo, de modo nenhum, é perdê-los durante uma ruptura emocional, estando

brigado, estando sem falar com eles. A culpa costuma aparecer nas nossas distrações, o remorso

se aproveita dos nossos pequenos atos egoístas de i_olamento. Uma distância momentânea hoje

é fatal.

Você julga que interrompeu a comunicação ocasionalmente e não percebe que se trata de

um instante decisivo. Jamais vou parar de conversar com eles, jamais cairei na tentação da birra,

jamais agirei com chantagem, jamais bloquearei o contato como se fosse um ex-relacionamento,

jamais ignorarei alguma ligação.

Não é medo da morte, é medo da vida, de não valorizar a vida que resta. Será assim até

nosso último dia juntos, até sermos cobertos pela saudade.



(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/04/depois-dos-80-anos-dos-paisclv196kic004m01dz745pake2.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o fragmento “Uma distância momentânea hoje é fatal”, retirado do texto, o termo sublinhado é um verbo:
 

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