TEXTO
Classificar palavras
Uma das coisas mais complicadas é classificar palavras. Pode parecer evidente o que é um substantivo ou um adjetivo, principalmente quando o exemplo é bem escolhido. Quando estudamos essas coisas na escola, se o professor é claro, tudo parece se encaixar. Ele define uma classe, dá uns exemplos, depois alguns exercícios e, eventualmente, cobra a mesma coisa na prova. Os mais sádicos escolhem exceções para pegar os alunos, mas esses, de fato, não são propriamente professores. Estão mais preparados para atuar nas pegadinhas da TV. Na verdade, também os muito comportados não são propriamente professores, porque acabam escondendo dificuldades reais e transmitindo uma ideia simplificada do que seja a língua. Não educam para a descoberta, para a análise. Assim, acabamos achando normal que haja problemas difíceis de serem resolvidos nos diversos campos de conhecimento da natureza, mas acabamos nos acostumando com a ideia de que um professor de português deve ter sempre certeza sobre tudo, respostas prontas e claras. É que a imagem de língua apresentada é uma imagem simplificada.
Mas, quando se trata de língua viva, a coisa não é tão fácil como parece e pode se complicar ainda mais se se leva em conta o processo de mudança. Considere-se um fenômeno que tem a ver com certas mudanças de forma, que implicam possível classificação. Por exemplo, “foi direto pro quarto”, “desceu, mas desceu apertado”, em que as palavras “direto” e “apertado” estão funcionando como advérbios, mas têm cara de adjetivos. Trata-se de conversão, digamos, de advérbios em adjetivos. Esses exemplos fazem lembrar imediatamente um caso cuja ocorrência é cada vez maior: o da palavra “independente” usada no lugar de “independentemente”. Por exemplo: “Independente da teoria, esses dados são importantes”. O leitor sabe que, pelas lições de português, seria de esperar a forma “independentemente da teoria, esses dados...”
Outros exemplos, ainda mais interessantes, são os de adjetivos que estão sendo usados na função de marcadores conversacionais: palavras que usamos tipicamente para marcar finais ou inícios de falas. Pois bem, há adjetivos nessa função. Quando falamos, muitas vezes começamos ou terminamos nossas falas dizendo “exato, certo, claro, lógico, evidente”. Ora, em boas e bem comportadas listas, essas palavras seriam adjetivos. O que estão fazendo nessa outra função, que não é a de adjunto, como preveem as boas aulas e as boas provas de português?
Tinha acabado de escrever esse texto, liguei a televisão para dar uma espiada num jogo de futebol. No final, o repórter entrevistou Dida, aquele goleiro. Sabem o que ele disse? “A gente trabalha profissional”. Um professor o corrigiria: “profissionalmente, Dida”. Pois é. Está aí o Dida confirmando o processo de conversão acima exemplificado. Ao vivo e a cores.
(Sírio Possenti. Mal comportadas línguas. Curitiba: Criar Edições, 2000, p. 63-65. Adaptado).
No trecho, “Mas, quando se trata de língua viva, a coisa não é tão fácil como parece e pode se complicar ainda mais se se leva em conta o processo de mudança”, no trecho sublinhado, a redação escolhida pelo autor manifesta:
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