A imagem das gramáticas
Há claros preconceitos em relação às gramáticas. Muitos imaginam que se trata de um campo excessivamente complicado ou apenas chato. As línguas teriam numerosas exceções, e as gramáticas, terminologia demais. Nenhuma das afirmações é verdadeira. Provavelmente, há mais terminologia nas ciências biológicas que na gramática. E a morfologia das plantas talvez seja mais complexa que a das línguas. O que acontece é que não estudamos a flora e a fauna (apenas) para defendê-las, ou para consertá-las, mas para conhecê-las. No entanto, quando estudamos uma gramática (especialmente a gramática de nossa língua), parece que a única vantagem seria preservar a língua – e, eventualmente, nossa nota e nossa cara.
Mas pode-se estudar gramática como se estuda biologia ou física, e não apenas como se estuda etiqueta – que é o reino mais típico do “isso pode, isso não pode, isso pega bem, isso é coisa de caipira”.
O mais importante em relação às gramáticas seria provavelmente deixar claro que o que ocorre com elas ocorre também em outros campos. Por exemplo: podemos estudar o Imposto de Renda do ponto de vista da legislação (como os contribuintes devem comportar-se) e do ponto de vista dos fatos (quais são os montantes pagos, quem paga mais, quem paga menos, quais os macetes para fazer uma declaração de renda favorável etc.). Podemos estudar anatomia para saber como são compostos os corpos, mas também podemos dedicar-nos à postura e a seus efeitos sobre saúde e elegância.
Outra simplificação: em geral, esperamos que alguém que sabe gramática tenha todas as respostas. Por razões que seria interessante analisar, ouvimos todos os dias economistas cheios de dúvidas, meteorologistas que não fazem previsões arriscadas, médicos que dizem que cada caso é um caso e que aguardam para ver se a medicação produzirá ou não o efeito esperado. (...)
Por que esperaríamos que os gramáticos – ou os professores de português – devem saber tudo, e de improviso? De fato, supomos que as gramáticas têm pouco a ver com as línguas. Se imaginássemos que as línguas são objetos complexos, tanto quanto a genética, ou mais, que estão sempre em construção, são faladas e eventualmente escritas, e que pode ser interessante conhecer como funcionam, compará-las, especular sobre suas relações com cérebro e mente, por um lado, e com a cultura, por outro, talvez o campo nos parecesse mais interessante. (...)
Em resumo: pode-se estudar gramática para corrigir traços da linguagem. Mas pode-se estudar gramática(s) para conhecer alguma coisa sobre as propriedades das línguas.
(Sírio Possenti. Questões de linguagem – passeio gramatical dirigido.
São Paulo: Parábola. 2011, p. 21-23. Adaptado.)
Observe alguns trechos do Texto e analise os comentários que são feitos em relação a cada um deles.
1) “Mas pode-se estudar gramática como se estuda biologia ou física, e não apenas como se estuda etiqueta.” (Os conectivos sublinhados têm um sentido de causalidade.)
2) “Podemos estudar anatomia para saber como são compostos os corpos”. (O conectivo sublinhado tem um valor de comparação.)
3) “As línguas teriam numerosas exceções, e as gramáticas, terminologia demais.” (A segunda vírgula indica a elipse de um verbo.)
4) “O que acontece é que não estudamos a flora e a fauna (apenas) para defendê-las, ou para consertá-las, mas para conhecê-las.” (Os pronomes destacados retomam um mesmo conjunto de termos já referido no texto.)
5) “No entanto, quando estudamos uma gramática (...) parece que a única vantagem seria preservar a língua”. (O conectivo sublinhado estabelece uma relação de oposição com o trecho precedente.)
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