SÃO BERNARDO
“... encontro-me aqui em São Bernardo, escrevendo.
As janelas estão fechadas. Meia noite. Nenhum rumor na casa deserta.
Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. Não tenho sono. Deitar-me, rolar no colchão até a madrugada, é uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo isto. Amanhã não terei com que me entreter.
Ponho a vela no castiçal, risco um fósforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrança de Madalena persegue-me. Diligencio afastá-la e caminho em redor da mesa. Aperto as mãos de tal forma que me firo com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beiços a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
A agitação diminui.
- Estraguei a minha vida estupidamente.”
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1997.
“- Estraguei a minha vida estupidamente.”
Com essa afirmação, e considerando, também, todo o fragmento, o personagem principal assume a seguinte atitude diante da sua vida: