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Língua falada e língua escrita: existe prioridade?

A língua natural seja ela falada ou escrita é um sistema simbólico complexo. Na verdade, fala e escrita representam duas modalidades do mesmo sistema linguístico. Em outras palavras, existe um sistema de escrita e um sistema de fala que são reconhecidos como “a mesma língua” (Robins, 1995: 179). No entanto, a gramática da língua escrita difere consideravelmente da gramática da língua falada. De qualquer modo, não há oposição entre língua falada e uma mesma língua escrita porque não existem duas estruturas completamente diferentes para uma mesma língua, o que pressuporia uma situação de bilinguismo.
Além disso, seria muito raro que uma língua escrita se tornasse completamente independente da língua falada da qual ela se origina. Por outro lado, existe oposição entre língua falada e código escrito no nível da realização, a saber: a) a língua falada usa como meio de transmissão a substância sonora ou fônica, enquanto o código escrito usa como meio de transmissão a substância gráfica; e b) ambos ocorrem em situações de comunicação distintas.
O estudo sistemático da linguagem desde suas origens na Grécia clássica focalizou a língua principalmente na sua forma escrita. Pode-se dizer que a escrita é uma forma de expressão muito recente na história da humanidade e tem uma história independente da língua falada. Veremos a seguir que duas concepções opostas sobre a relação entre fala e escrita convivem na atualidade.
Na concepção mais antiga, a da gramática tradicional, há uma tendência para considerar a língua falada como inferior à língua escrita, uma vez que se acredita que a língua falada não tem organização ou regras próprias. Nesta tradição prescritiva, as regras da gramática são ilustradas exclusivamente a partir de textos escritos. De fato, a gramática tradicional defende a prioridade da língua escrita sobre a língua falada tendo como modelo a língua da literatura. Do mesmo modo, na visão diacrônica da linguística histórica, que predominou durante o século XIX, a língua foi vista essencialmente como uma coleção estática de palavras escritas.
Essa concepção começou a mudar no início do século XX com o surgimento da linguística sincrônica que deu prioridade ao discurso oral. Linguistas como F. de Saussure, L. Bloomfield e E. Sapir enfatizaram a primazia da língua falada sobre a língua escrita.
Na linguística moderna, portanto, a língua falada passou a ser vista como mais fundamental ou mais básica do que a língua escrita. Segundo Crystal (1997: 180), a abordagem contemporânea argumenta que se a língua falada é o meio primário de comunicação entre as pessoas ela deve ser o objeto primário de investigação da linguística. Entre os argumentos em geral apresentados para justificar que a língua falada seja mais básica do que a língua escrita, destacam-se os seguintes: a fala é milhares de anos mais antiga do que a escrita; a fala desenvolve-se naturalmente nas crianças (enquanto a escrita deve ser ensinada artificialmente); e sistemas de escrita são derivativos (em sua maioria baseados nos sons da fala). Assim, por ser considerada como mero reflexo da língua falada, a escrita passou a ser de secundária importância para a linguística contemporânea. Uma terceira possibilidade ou meio caminho entre os dois extremos discutidos acima seria reconhecer que nenhum meio de comunicação pode ser considerado como intrinsecamente superior ao outro.
Devido às semelhanças linguísticas entre língua falada e língua escrita não se pode dizer que uma seja mais complexa ou elaborada que outra. Na realidade, o confronto entre aquelas duas perspectivas tem falseado a discussão e prejudicado o ensino da língua materna na escola.
(http://marcobomfoco.blogspot.com/2008/10/1-lnguafalada- e-lngua-escrita. captado em 15/06/2009)
Sobre língua falada/língua escrita, assinale a alternativa incorreta: