Leia o texto e respondas as questões de 1 a 8.
A Bola
Luís Fernando Veríssimo
O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar sua primeira bola do pai. Uma número 5 oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “legal”, ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa.
- Como é que liga? – Perguntou.
- Como, como é que liga? Não se liga.
O garoto procurou dentro do papel de embrulho.
- Não tem manual de instrução?
O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.
- Não precisa manual de instrução.
- O que é que ela faz?
- Ela não faz nada, você é que faz coisas com ela.
- O quê?
- Controla, chuta...
- Ah, então é uma bola.
Uma bola, bola. Uma bola mesmo. Você pensou que fosse o quê?
- Nada não.
O garoto agradeceu, disse “legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da TV, com a bola do seu lado, manejando os controles do vídeo game. Algo chamado Monster Ball, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de Blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio. Estava ganhando da máquina.
O pai pegou a bola nova e ensinou algumas embaixadinhas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto.
- Filho, olha.
O garoto disse “legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e o cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro do couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês pra garotada se interessar.
Fonte: Veríssimo, Luis Fernando. A bola. Comédias da vida privada; edição especial para as escolas. Porto Alegre: L&PM, 1996. P. 96-7
Ainda sobre o texto, considere as seguintes afirmações:
I. No trecho “O pai começou a desanimar e pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.”, o acréscimo do termo “decididamente”, no segundo período, dá ênfase à percepção do pai frente à reação do filho.
II. A expressão “legal” é proferida pelo filho três vezes no texto. Cada uma delas com um sentido diferente. Na primeira, expressa gratidão; na segunda, decepção e na última, indiferença.
III. O pai se vê frustrado com o descaso do filho perante o presente que lhe deu, pois projetava nele o saudosismo de sua própria infância.
IV. Ao considerar a hipótese de se ter, realmente ,um manual de instruções para a bola e acrescentar que este fosse em inglês, para despertar o interesse dos jovens, o pai associa os gostos desta geração não apenas à tecnologia, mas também à cultura estrangeira.
Está CORRETO apenas o que se afirma em: