Leia o texto, para responder às questões de números 01 a 05.
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Maneira de olhar
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Recomendaram-lhe que se deitasse cedo, para acordar à hora da passagem do ano. A julgar pela insistência da recomendação, o ano não passa se os garotos ficarem de vigília. E como havia de ser, se não passasse? Era a vida do mundo inteiro que se perturbava. Tudo que estava para acontecer a partir de meia-noite bruscamente ficaria retido em malas, pacotes, na escuridão. Seria complicar tanto a vida dos outros, e a sua própria, que o menino se decidiu a acatar a ordem ingrata. Ou fingir acatamento. Iria deitar-se, que remédio? Fecharia os olhos, pois esse é o testemunho de sono que as mães procuram no rosto dos filhos. Mas dormir de verdade, isso não. Imóvel, como nas ocasiões em que brincava de morrer, continuaria atento ao que ocorresse noite afora, pelo mundo solto. Queria devassar o mistério da passagem do ano, que ninguém sabe explicar.
A babá falara numa faixa de luz, que corta o céu de lado a lado, verdadeiro arco-íris tão intenso que ninguém pode botar-lhe os olhos em cima; corusca, ouve-se um coro de anjos, tudo some de repente: o ano velho se foi, chega o ano novo. Mas seu tio, piloto da Varig, voou numa noite de 31 de dezembro e não confirmou a luz e os anjos; o ano novo desce é de paraquedas, bem no centro da Praça General Osório. Quanto ao ano velho, acaba feito balão que perdeu gás, muito choco.
Como as pessoas são mentirosas. A história certa eles não contam, e cada um vai inventando uma história que desmente outra. Sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, sua própria mãe não estaria mentindo? Por mais que lhe perguntasse como é a cara do ano velho e a cara do ano novo, não tivera resposta. Ela respondera com um sorriso, desses de que a gente gosta, mas não esclarecem nada, são modos de esconder: “Você mesmo verá como é. Depende da maneira de olhar”. Conversa com outros garotos a respeito não adianta. Cada qual diz mais bobagem que o outro; aprendem a mentir com os grandes.
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(Carlos Drummond de Andrade. A Bolsa e a vida.
Poesia e Prosa. Adaptado)
É correto afirmar que o narrador