O fim dos empregos
O app de chamar o táxi faz o motorista se materializar em minutos. E está quebrando as empresas de rádio-táxi. No AirBnB, você entra, escolhe uma casa disponível para alugar por uma semana e já negocia esse mini-aluguel direto com o dono. Sai bem mais barato que hotel. Lindo, só que não para os hotéis, que estão perdendo hóspedes aos tufos.
Dá para passar dez páginas citando exemplos desses: serviços que estão facilitando nossas vidas enquanto ceifam empregos. Isso porque uma boa startup tem duas características: ela é "disruptiva", como gostam de dizer os gurus do marketing, já que chacoalham o setor em que competem. E é "magra": entra rápido em operação e emprega pouca gente. Um bom exemplo de startup assim é o Instagram. Quando foi vendida ao facebook por US$ 1 bilhão, a empresa tinha 13 funcionários. A Kodak, que foi o Instagram de um passado nem tão distante, empregava 140 mil funcionários nos anos 1990. E decretou falência ano passado. Só aí sobram 139.987 funcionários ...
O desemprego causado por tecnologia não é exclusividade do nosso tempo. O medo de máquinas tomando o lugar das pessoas vem desde pelo menos 350 a.C, com Aristóteles perguntando o que seria dos servos quando a lira tocasse sozinha. Mas foi dois mil anos depois do filósofo, com a Revolução industrial, que a coisa ficou séria. Na Inglaterra do século 19, os chamados luditas destruíram fábricas que substituíram trabalhadores braçais por máquinas a vapor.
A maior parte dos economistas apontaria que não adianta se revoltar porque a história das "revoluções produtivas" é uma história de desemprego momentâneo. A introdução de máquinas deixou um monte de gente sem ter o que fazer no campo. Mas elas migraram para as cidades e encontraram várias coisas para fazer. Quando as máquinas começaram a tomar os empregos em fábricas, essas pessoas foram para o campo dos serviços. E essa foi a receita do progresso econômico até aqui: a tecnologia tirava empregos num primeiro momento, porque aumentava a produtividade - uma pessoa passava a fazer o trabalho de várias pessoas. Depois, o aumento da produtividade criava mais riqueza. E essa riqueza dava à luz mais empregos. Pronto. Bom para todas as partes. Por isso mesmo os economistas chamam de "falácia ludita" a ideia de que a automação gera desemprego duradouro.
Mas agora parece ser diferente. E o que mostra um cálculo dos pesquisadores Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, do MIT. Eles observaram o seguinte: quanto mais aumentou a produtividade ao longo do século passado, mais cresceu o número de empregos. Até aí, tudo em linha com a teoria econômica tradicional. Mas as coisas mudaram. Por volta do ano 2000, a produtividade começou a crescer num ritmo bem mais acelerado que a criação de novas vagas. E a distância só aumentou: quanto mais produtividade (ou seja: quanto mais tecnologia), menos emprego. Os países do mundo desenvolvido estão de prova: boa parte deles sofre com taxas altíssimas de desemprego, que teimam em não voltar aos índices pré-crise de 2008.
Mas agora parece ser diferente. E o que mostra um cálculo dos pesquisadores Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, do MIT. Eles observaram o seguinte: quanto mais aumentou a produtividade ao longo do século passado, mais cresceu o número de empregos. Até aí, tudo em linha com a teoria econômica tradicional. Mas as coisas mudaram. Por volta do ano 2000, a produtividade começou a crescer num ritmo bem mais acelerado que a criação de novas vagas. E a distância só aumentou: quanto mais produtividade (ou seja: quanto mais tecnologia), menos emprego. Os países do mundo desenvolvido estão de prova: boa parte deles sofre com taxas altíssimas de desemprego, que teimam em não voltar aos índices pré-crise de 2008.
E talvez nunca voltem. "A raiz dos nossos problemas não é que estamos em uma grande recessão", eles dizem. "Mas no início de uma grande reestruturação". O problema é que a inovação estaria acontecendo rápido demais. E não haveria tempo nem dinheiro suficiente para começar novas indústrias, que ainda não imaginamos. Se antes uma ocupação demorava décadas para sumir, hoje elas morrem numa piscada. [ ... ]
Outro agente criador de desemprego é o "trabalho gratuito". Os vendedores podem estar perdendo o emprego, mas as pessoas continuam indo ao site da Amazon e indicando produtos com resenhas. E dando estrelinhas no iTunes. O computador faz o trabalho do vendedor. Num site de banco é basicamente a mesma coisa. Quando você paga uma conta na internet está trabalhando de graça para a instituição financeira. Como caixa. [ ... ]
Mas há um outro lado nessa história. O emprego está em crise, mas o empreendedorismo não. Nunca foi tão simples montar um negócio novo. E não estamos falando só de empresas. Se você coloca o seu apartamento para alugar no AirBnB quando sai de férias, já pode se considerar dono de hotel. Mesmo ser taxista hoje é quase como ter uma startup - os motoristas investem no marketing pessoal para aparecerem com mais estrelinhas nos apps, e conseguir mais clientes. Ou seja: essa era do "fim do emprego", ao que parece, é só efeito colateral do início de uma outra era, a do empreendedorismo de massa. A verdade é que estamos diante de uma nova revolução industrial. Uma revolução que está nas suas mãos. Bom trabalho.
(Superinteressante, setembro de 2013)
Observe, mais uma vez, o seguinte período do texto:
"Isso porque uma boa startup tem duas características: ela é 'disruptiva', como gostam de dizer os gurus do marketing, já que chacoalham o setor em que competem."
O uso das aspas na palavra em destaque serve para: