Magna Concursos
2372961 Ano: 2006
Disciplina: Português
Banca: Marinha
Orgão: Col. Naval
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O amigo da onça
A Onça, que é bicho valente - mas nem sempre atilado, como se pensa -, estava quietinha no seu canto, quando lhe apareceu o compadre Lobo e lhe foi dizendo:
- Saiba de uma coisa, comadre Onça: você - com perdão 05 da palavra não é, como supõe, o bicho mais valente e destemido que existe no mundo, nem também o Leão, com toda a sua prosa de rei dos animais.
- Como assim! - gritou a Onça, enfurecida. Então, como é isso, grande pedaço de idiota? Haverá bicho mais valente e poderoso do que eu?
O Lobo, adoçando a voz, respondeu:
- Ó comadre, me perdoe. Estou arrependido de dizer tal coisa ... Mas a minha intenção foi preveni la contra um bicho terrível que apareceu nesta paragem. Uma pessoa prevenida vale por duas.
- Sim, não deixa você de ter alguma razão acudiu a Onça mais acomodada. Mas sempre quero saber o nome desse bicho. Como se chama?
Esse bicho, comadre, chama-se homem, conforme me disse o amigo papagaio. Nunca vi em minha vida animal de mais perigosa valentia. Ele sim, e ninguém mais, é o que me parece ser mesmo o verdadeiro rei dos animais. Basta dizer que, de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um leão e uma hiena. Ih! Comadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus nos livre!
- Oh! Compadre, não me diga!
- É como lhe conto. E o que mais admira é ser o bicho-homem de pequeno porte. Parece até fraco, e é muito mal servido de unhas e dentes. Deve ser um bicho misterioso e encantado.
- Pois queira ou não queira, tem de mostrar-se o bicho, ou então, agora mesmo perderá a vida.
- Lá por isso não seja - disse o Lobo amedrontado.
- Iremos. Mas havemos de tomar todas as precauções. Eu - com a sua licença - posso correr mais do que a comadre. Assim, levaremos uma embira daquelas que não arrebentam nunca. Amarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos.
Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, seu podrela, alguma vez onça fugir?
- Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?
- Está bem. Faremos como propõe.
E partiram. A Onça com a embira atada ao pescoço, e o Lobo, muito respeitoso e tímido, a puxá-la.
Quando chegaram ao destino, o bicho-homem, surpreendido ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha e, atarantado, bateu fogo, isto é, espirrou, uma, duas vezes, que foi mesmo um estrondo de todos os diabos.
O Lobo então mais que depressa disparou numa corrida desabalada, redobrando quanto podia as forças para arrastar a Onça pela forte embira que tinha atado no pescoço dela.
De repente, já muito distante, o Lobo sentiu que a Onça estava mais pesada. Parou então e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.
O Lobo, sem perceber que a Onça havia morrido enforcada no laço da embira - antes pensando que estivesse apenas cansada - , disse-lhe, tremendo como varas verdes:
- He lá, comadre! Não ri não que o negócio é sério!
(GOMES, Lindolfo. IN: literatura universal. Janeiro: Ediouro, 2001, Os 100 melhores contos de humor da Org. Flávio Moreira da Costa. Rio de p. 522-3.)
Assinale a opção que apresenta palavras acentuadas pela mesma razão.
 

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