"Vamo pro sítio! Vamo pro sítio!"
Não estou sonhando quando escuto a mamãe entrar no
quarto cantando aquela frasezinha. Em poucos
segundos, meu corpo desperta numa explosão de
euforia. Aquelas palavras significam que o final de
semana promete ser maravilhoso: em breve, estarei indo
para o sítio dos meus avós.
Malas prontas, brinquedos separados e o carro já na
estrada. Entre risadas e brigas com meu irmão,
seguimos viagem. Quando o rastro de poeira surge na
estrada vermelha e o som do Bon Jovi ecoa, sei que
chegamos.
A casa está igual: a rede no mesmo lugar, o cheiro de
frango na cozinha, o pé de manga crescendo. Tudo
parece normal, mas há uma estranha sensação de vazio.
Cadê a missa na televisão, o terço da vovó, o barulho do
chinelo arrastando e as risadas vindas do fogão? Tudo
sumiu.
Percebo que o mundo inteiro estava ali — entre o cheiro
de frango e o som da missa. Nunca imaginei pisar ali
pela última vez. Acho que é hora de aceitar que precisamos encontrar outras receitas, outros caminhos e
outras brincadeiras.
Texto Adaptado
AFFONSO, Renan. Vamo pro sítio! Vamo pro sítio! In:
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Livros Abertos USP: coletânea de
textos literários contemporâneos. São Paulo: Universidade de São
Paulo, 2022. Disponível em:
https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1
691/1544/6178 . Acesso em: 4 nov. 2025.