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Na Bienal do Rio, futebol e literatura entram em campo juntos

Com abertura marcada para quinta-feira, dia 29, a 16ª edição da Bienal do Livro do Rio tem como maior novidade um espaço dedicado a debates sobre futebol e literatura. Em um aquecimento para os bate-papos, escritores, jornalistas e pesquisadores falam sobre a relação entre o mundo das letras e o esporte das multidões no Brasil

por Leonardo Cazes

Os caminhos do futebol e da literatura nunca se cruzaram muito no Brasil. Apesar de não faltarem escritores apaixonados pelo esporte, há um consenso de que, com exceção da crônica, a produção literária sobre o tema ainda é pequena se comparada com o tamanho da devoção do país pelo universo da bola. Mas, às vésperas da Copa do Mundo de 2014, houve uma mudança nesse quadro: novos romances engrossam a lista de obras sobre o tema e a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, que começa na quinta-feira, terá um espaço exclusivo, o Placar Literário, para falar de futebol em suas múltiplas dimensões. O próprio mercado editorial parece estar fazendo as pazes com o esporte, pois nunca se lançou tantos livros sobre jogadores, clubes e campeonatos, ressalta João Máximo, jornalista do GLOBO e curador do espaço.

Historicamente, a relação entre futebol e as letras nunca foi propriamente tranquila. Bernardo Buarque de Hollanda, professor da Escola Superior de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e que conversará com José Miguel Wisnik sobre “Amor e ódio na arquibancada”, no dia 1º de setembro, às 16h30m, destaca alguns momentos emblemáticos. O primeiro foi no final da década de 1910, quando o Brasil viveu um grande boom do esporte após a conquista do campeonato Sul-americano, em 1919, com uma vitória de 1 a 0 sobre o Uruguai no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O título coincidiu com uma série de greves gerais e a organização do movimento operário, de onde sairiam os futuros ídolos esportivos.

— Os intelectuais e simpatizantes dos movimentos anarquistas e comunistas associam o futebol à fábrica de estratégias de distração dos trabalhadores pelas classes dirigentes, disseminando um profundo ceticismo sobre o esporte, tal como aparece na obra de Lima Barreto no início dos anos 1920 — afirma o professor.

Falsos inimigos da bola

A antipatia de Lima Barreto será, inclusive, tema de uma das mesas do Placar Literário. No dia 2 de setembro, às 18h30m, Dênis de Moraes, biógrafo de Graciliano Ramos, e Joel Rufino dos Santos participarão do debate “Graça e Lima, os falsos inimigos da bola”. Máximo conta que a rejeição de ambos ao esporte foi mal interpretada. No caso de Barreto, que chegou a fundar uma liga contra o futebol, sua raiva era justificada pelo caráter elitista da atividade na época. O primeiro clube a aceitar amplamente os negros em sua equipe, por exemplo, foi o Vasco da Gama, na década de 1920. Em 1914, o Fluminense chegou a escalar um jogador negro, Carlos Alberto, mas o obrigou a entrar em campo utilizando pó-de-arroz no rosto para disfarçar a sua cor. É daí que vem o apelido que o tricolor carrega até hoje.

— O Lima Barreto não foi contra o futebol, ele foi contra uma instituição que marginalizava os negros na sociedade, como ele. Ele chegou a esculhambar o próprio presidente da República que era contra a convocação de negros e mulatos para a seleção. Outra grande lenda que corre até hoje é que Graciliano Ramos previu que o futebol não vingaria no Brasil. Esse artigo que ele escreveu no início dos anos 1920, com o pseudônimo de J. Calisto, foi publicado num jornal de Palmeira dos Índios (AL). Na época, tentava-se introduzir o futebol na cidade, imitando os grandes centros onde ele já era popular. Quando Graciliano diz que o futebol não ia vingar aqui, ele se referia à cidade, não ao país — defende Máximo.

O principal retrato desta época é o livro “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, lançado em 1947. Para o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues, este é o grande romance sobre futebol escrito no país, apesar de não ser uma obra de ficção. Rodrigues, que lança em setembro “O drible” (Companhia das Letras), afirma que o livro de Mário Filho é um “romance de não ficção”, pegando emprestado a expressão com que Truman Capote definia o seu “A sangue frio”, clássico do new journalism americano. O escritor chama a atenção para a linguagem de crônica e a enorme galeria de personagens e suas histórias apresentados na obra.

Bernardo Buarque de Hollanda enumera outras obras sobre futebol pouco conhecidas, como “Água-mãe”, publicada em 1941, de José Lins do Rêgo. Ela narra a melancólica trajetória de um craque dos gramados que é esquecido quando se contunde e se vê obrigado a abandonar o campo. Hollanda cita ainda “O sol escuro”, lançado em 1967, de Macedo Miranda, e o conto “O dia em que o Brasil perdeu a Copa”, de Paulo Perdigão, em 1975. O texto de Perdigão ficou mais conhecido por sua adaptação cinematográfica feita por Jorge Furtado e Anna Azevedo.

Apesar dos exemplos, o número é modesto. Sérgio Rodrigues, que participará da mesa “Gols de letra: dois romances” com Hélio de la Peña no dia 31 de agosto, às 18h30m, faz uma comparação com outros países e esportes para mostrar que o descompasso entre a paixão nacional e a produção literária não é só coisa nossa.

— Os casos são mesmo escassos, principalmente quando se leva em conta a força do futebol no país. Só não sei se faz muito sentido esse raciocínio que busca paralelos simplistas entre cultura esportiva e cultura literária. Não conheço o grande romance italiano de Fórmula 1 ou o grande romance japonês de sumô. Talvez porque o esporte seja um sistema narrativo completo, que não só prescinde de novas linguagens como tende até a rejeitá-las — diz o escritor.

(Disponível em: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa. Acesso em: 27 ago. 2013. Adaptado.)

"Apesar de não faltarem escritores apaixonados pelo esporte, há um consenso de que, com exceção da crônica, a produção literária sobre o tema ainda é pequena se comparada com o tamanho da devoção do país pelo universo da bola." (§ 1)

Na passagem acima, a palavra sublinhada é empregada para introduzir uma ideia de:

 

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