Quando deixei o Brasil pela primeira vez, em 1982, para assumir a cobertura regional da Ásia na revista Newsweek, viajando de um lado para outro entre Pequim, Hong Kong e Tóquio, fiquei impressionado com o fato de os criadores de cultura popular serem muito mais respeitados, e até venerados, na China e no Japão do que no Brasil. No Japão, por exemplo, os mais renomados praticantes de formas de arte consideradas essenciais para a identidade cultural da nação, como ikebana, fabricação de espadas e teatro nô, são designados “tesouros nacionais” e recebem um estipêndio regular, que lhes permite aperfeiçoar seu ofício, especialmente se não há mercado comercial suficiente para sustentar o que eles produzem.
Se um sistema como esse existisse no Brasil, seguramente um de seus beneficiários seria meu amigo Dila, um criador de cordel e xilogravuras que conheço desde a década de 1970. Dila, também conhecido como José Ferreira da Silva, vive em Caruaru, a alguns quarteirões do museu dedicado a Luiz Gonzaga, e é um gênio naquilo que faz. Uma especialista em arte estrangeira que entrevistei para uma reportagem que está incluída neste bloco chega mesmo a compará-lo a Van Gogh. Mas como o Brasil realmente não valoriza seu talento, ele vive de forma humilde numa casa minúscula, que inclui uma pequena e primitiva oficina gráfica, garantia de seu sustento. Totalmente negligenciado, Dila ganha pouco, muito pouco, com suas xilogravuras e cordéis sobre o cangaço, e a luta por sobreviver acaba minando a criatividade dele, deixando-o cansado e deprimido. Ah, se ele estivesse no Japão.
Até aqui neste texto, focalizei mais a palavra cantada e falada do que a palavra escrita, exceto no caso do cordel. Isso não significa que o Brasil não tenha grandes romancistas ou poetas, só que a música e o cinema brasileiros são mais conhecidos pelo mundo fora do Brasil do que a literatura do país. Embora seja injusto, isso é um fato, e durante anos me perguntei porque isso ocorria. Eu queria ter respostas, mas não tenho; tenho só teorias.
Adaptado de: ROHTER, Larry. Deu no New York Times. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
As formas verbais existisse, seria inclui estão conjugadas, respectivamente, no